segunda-feira, 25 de julho de 2011

Jornada Brasileira do Cinema Silencioso




V JORNADA BRASILEIRA DE CINEMA SILENCIOSO 


De 5 a 14 de agosto acontece na Cinemateca Brasileira, a V JORNADA BRASILEIRA DE CINEMA SILENCIOSO, evento dedicado ao cinema produzido até meados de 1930, quando a chegada do som modificou a forma de apreciação dos filmes.  A Jornada chega a sua 5ª edição estabelecendo-se como um dos principais eventos do calendário cultural de São Paulo e reconhecido internacionalmente.

O festival traz filmes silenciosos do cinema brasileiro e internacional apresentados com acompanhamento sonoro ao vivo, oferecendo ao público experiências audiovisuais diversificadas. Em relação aos outros anos, a Jornada amplia o número de filmes e convidados. Em 2011, serão exibidos 57 filmes em 22 sessões musicadas. Nesta edição, a Jornada homenageia  o cinema silencioso da Itália, que despontou em 1910 e ficou conhecido por todo o mundo. As obras selecionadas são resultado de esforços de preservação de cinematecas italianas. A conferência inaugural do evento será feita pelo curador do acervo cinematográfico do Museo Nazionale del Cinema de Turim,  Luca Giuliani, que abordará os trabalhos de preservação realizados em seu país e especialmente no arquivo em que trabalha.
Fragmentos da Vida

O centenário da chegada do italiano Gilberto Rossi ao Brasil, importante cinegrafista do período silencioso brasileiro, será tema de um dos programas do evento.  Dono da Rossi Film produziu centenas de documentários e cinejornais, e vários longas-metragens, dirigidos em sua maioria pelo prestigioso cineasta José Medina. Entre os filmes de ficção produzidos pela Rossi Film está um clássico brasileiro, Fragmentos da vida (1929), que será exibido com o acompanhamento da bisneta de Gilberto Rossi, a pianista erudita Anna Claudia Agazzi, que atualmente grava um CD no Canadá.

Já no programa "Janela para a América Latina", será apresentado o longa Garras de ouro, realizado na Colômbia em 1926 por P.P. Jambrina. O filme evidencia a disputa entre os Estados Unidos e a Colômbia, em 1903, pelo território do Panamá. Considerado a primeira película antiimperialista realizada na América Latina, sua trama apresenta o "roubo" do território panamenho pelos Estados Unidos para a construção do canal interoceânico.

Será possível conferir ainda, nos "Destaques de Pordenone", com filmes apresentados nas Giornate del Cinema Muto, especialmente escolhidos por Paolo Cherchi Usai, do comitê diretor desse festival que em 2011 completa 30 anos, dois filmes franceses e dois alemães, um ligado ao Partido Comunista de Berlim e um integralmente proibido na Alemanha – Da manhã à meia-noite. Deste, a única cópia sobrevivente no mundo foi encontrada e restaurada no Japão.

O evento também homenageará os "150 anos de nascimento de Georges Méliès", criador do espetáculo cinematográfico caracterizado pela magia, satanismo e contos de fadas, com a exibição de filmes de sua autoria.  A V JORNADA BRASILEIRA DE CINEMA SILENCIOSO ainda traz o a  projeção de dois filmes curtos brasileiros, ambos restaurados pela Cinemateca Brasileira.  São eles  Passos na madrugada (1949) e  O Caso da joalheria (1961)ambos raridades do cinema amador realizado no Rio Grande do Sul, no auge da "febre do 16mm". São filmes silenciosos, produzidos, já na era cinema sonoro. 



MÚSICA

A curadoria musical da V JORNADA BRASILEIRA DE CINEMA SILENCIOSO é de responsabilidade do compositor Livio Tragtenberg. Entre os músicos, bandas e compositores convidados para a edição deste ano estão: Violeta de Outono, Coração Quiáltera, Jazz Sinfônica de Diadema, Max de Castro, Michelle Agnes, Fabio Tagliaferri, Dino Barioni, Antonio Loureiro, Quinteto de Sopro Nino Rota e Laércio de Freitas, entre outros.

Os filmes programados para a Jornada serão exibidos com acompanhamento musical ao vivo na Sala Cinemateca BNDES e em projeção silenciosa na Sala Cinemateca Petrobras.

Em 2011, a Jornada também apresenta o resultado do trabalho de uma oficina para realização de trilhas sonoras, coordenado por Gustavo Barbosa Lima, com a participação de um quarteto de cordas formado por alunos da Escola de Música do Estado de São Paulo – EMESP Tom Jobim. O grupo fará o acompanhamento musical de comédias curtas.

Concerto no Ibirapuera

O últimos dia Pompéia
Mais uma vez a Jornada organiza um espetáculo de grandes proporções. No dia 6 de agosto, às 20h, o filme Os Últimos dias de Pompeia (Gli Ultimi giorni di Pompei)  será exibido em projeção ao ar-livre no Auditório Ibirapuera. A produção italiana de 1913, dirigida por Eleuterio Rodolfi terá o acompanhamento musical da Banda Jazz Sinfônica de Diadema, regida pelo maestro Todd Murphy.

Serviço:
V Jornada  Brasileira de Cinema Silencioso

Quando: 5 a 14 de agosto
Onde: Cinemateca (salas BNDES e Petrobras)/ end: Largo Sen. Raul Cardoso, 207 – Vila Clementino (próx. à estação Vila Mariana do metrô)
Entrada: Gratuita
Mais informações:  http://www.cinemateca.gov.br/jornada 


Quando: 6 de agosto
Onde: Auditório Ibirapuera – Parque do Ibirapuera
Entrada: Gratuita


JANELA PARA A AMÉRICA LATINA

Garras de oro
Garras de ouro
Colômbia, 1926, 35mm, 1.122m, preto e branco com viragens e planos coloridos, 55min a 18 qps
companhia produtora Cali Film; direção P.P. Jambrina (Alfonso Martínez Velasco); direção de fotografia Arnaldo Ricotti; roteiro José Vicente Navia; elenco Lucia Zanussi
origem da cópia Fundación Patrimonio Fílmico Colombiano
O editorialista de The World, jornal da "Cidade dos arranhacéus, capital da Yanquilândia", precisa encontrar provas para defender-se de uma acusação de calúnia por ter escrito que Theodore Roosevelt, artífice do Panamá, não devia ser reeleito presidente dos Estados Unidos. Roosevelt descumprira o tratado em virtude do qual os Estados Unidos se comprometiam a desenvolver uma via interoceânica através do istmo do Panamá, mantendo a integridade territorial do que então era a Colombia. Para se defender, o jornalista envia vários detetives à Colombia para encontrar provas da existência desse tratado. Um desses perdigueiros é Patterson, apaixonado por Berta, filha de um modesto empregado do consulado da Colombia na "cidade dos arranhacéus". Primeiro filme antiimperialista na América Latina.

Garras de Oro, mudo testigo de una injusticia
Garras de ouro, testemunha muda de uma injustiça
Colômbia, 2011, HD, cor, 52min
companhia produtora Universidad del Valle; produção Oscar Campo; direção e roteiro Oscar Campo, Ramiro Arbeláez; direção de fotografia Santiago Lozano, Rodrigo Ramos (Cali), Oscar Campo (Nova Iorque), George Leidsmar (Washington), Ángel Polo (Bogotá); montagem Oscar Campo, Rodrigo Ramos; edição Rodrigo Ramos, Santiago Lozano; som César Torres, Juan Felipe Rayo, Félix Corredor; música Alejandro Ramírez; entrevistados Juana Suárez, Rodrigo Vidal, Luis Ospina, Rito Alberto Torres, Olga Lucía Gutiérrez, Jorge Orlando Melo, Dan Streible
O documentário destaca os enigmas mais importantes da produção e divulgação do filme Garras de ouro, entrevistando pessoas envolvidas em sua descoberta, restauração e atual difusão, a partir da narração e do acompanhamento do pesquisador Ramiro Arbeláez em várias cidades.
OFICINA SONORA
Max e a mulher barbada
Amoureux de la femme à barbe
França, 1909, 35mm, preto-e-branco, 6min
companhia produtora Pathé Frères; elenco Max Linder
O jovem Max decora bem suas lições, e com a recompensa recebida vai a um parque de diversões. O empresário aproveita-se da paixão fulminante de Max pela mulher barbada e o contrata como auxiliar. Mas Max descobre que a barba da mulher é falsa e foge vestido de urso. Perseguido até sua casa, o pai de Max denuncia o golpe que fora aplicado no filho.

Cretinetti paga as dívidas
Cretinetti paga i debiti
Itália, 1909, 35mm, preto-e-branco, 8min
companhia produtora Itala Film; elenco André Deed
Cretinetti, assediado por credores, foge através de portas e paredes e se oculta numa valise mágica que anda sozinha por ruas e parques, perseguida por um cortejo cada vez maior. Ao final, Cretinetti vende a mala mágica para um casal simplório, que acaba pagando as consequências das dívidas do habilidoso herói.
OFICINA SONORA
A Nova camareira é bonita demais
La Nuova cameriera è troppo bella
Itália, 1912, 35mm, com viragens, 8min
companhia produtora Società Anonima Ambrosio; produção Arturo Ambrosio; elenco Nilda Baracchi (Robinette), Armando Pilotti
Uma linda camareira fica exasperada com as atenções que todos os homens da casa dedicam a ela e pede o socorro de sua patroa. Juntas elas tramam um plano para acalmar a excitação amorosa dos galanteadores ousados. A camareira combina um encontro com cada um, todos à meia-noite, no jardim de inverno. Quando todos os homens estão lá, as duas mulheres trancam a porta e regam todos com a mangueira, acalmando seu ardor.

Lea e o novelo de lã
Lea e il gomitolo
Itália, 1913, 35mm, com viragens, 5min
companhia produtora Cines; elenco Lea Giunchi (Lea), Giuseppe Gambardella, Lorenzo Soderini
Os pais saem uma noite e deixam a adolescente Lea em casa com a recomendação de que não leia, mas faça dedicadamente seu tricô. Lea perde o novelo de lã (vemos que está preso atrás de sua saia), procura-o por toda parte, e destrói a casa nessa busca. Quando os pais voltam, concluem que o melhor seria que ela lesse.

Águas milagrosas
Le Acque miracolose
Itália, 1914, 35mm, com viragens, 11min
companhia produtora Società Anonima Ambrosio; direção Eleuterio Rodolfi; roteiro Arrigo Frusta; elenco Gigetta Morano (Gigetta), Eleuterio Roddolfi (dr. Rodolfi)
Marido, mulher e um simpático vizinho são os principais protagonistas desta comédia muito refinada no plano visual. A traição conjugal faz a felicidade de todos eles.


PRESENÇA ITALIANA NO BRASIL


A Real Nave Itália no Rio Grande do Sul
Cachoeira do Sul, 1924, 35mm, 420m, preto-e-branco, 27min a 16qps
companhia produtora Zenith Film; produtor e diretor de fotografia Benjamin Camozato
origem da cópia: Cinemateca Brasileira
Benjamin Camozato, proprietário e cinegrafista da Zenith Film, desenvolveu intensa atividade a partir de sua sede em Cachoeira (RS). De seus trabalhos, conservaram-se esse filme e o documentário A Revolução no Rio Grande (1923), sobre importante conflito entre chimangos e maragatos. O navio Itália era considerado real por ter sido visitado pelo rei Vitório Emanuel, e percorria os países do hemisfério sul fazendo propaganda da cultura italiana e da política de Mussolini. Depois de visitar várias capitais do Brasil, o navio chega ao porto de Rio Grande. Comandante e oficiais visitam a cidade e também Pelotas, sendo recepcionados por autoridades, imigrantes italianos e grupos partidários do fascismo.

A cópia original existente na antiga coleção de nitratos da Cinemateca Brasileira foi duplicada no laboratório de restauro da instituição em março de 1990.

O Principe herdeiro da Italia em terras do Brasil
Rio de Janeiro, 1924, 35mm, 745m, preto-e-branco com tingimento, 41min a 18qps
companhia produtora A. Botelho Film
origem da cópia Cinemateca Brasileira
O documentário tem uma estrutura curiosa: o encouraçado São Paulo – orgulho da Marinha brasileira – parte do Rio de Janeiro levando a bordo o ministro das Relações Exteriores, Félix Pacheco, o embaixador italiano e Arthur Bernardes Filho, secretário particular do presidente da República, seu pai. Chegam à Bahia, onde o governador os recebe com as honras de praxe. Só então – mais de dez minutos decorridos do filme – desembarca em Salvador o futuro Umberto II de Savóia, último rei da Itália, que completa 20 anos de idade durante a visita. A presença em Salvador do então príncipe de Piemonte (amante das artes, era amigo do futuro cineasta Luchino Visconti) é ótimo pretexto para um documentário sobre a cidade, com tomadas das praias, da igreja do Bonfim, da Cidade Baixa e do centro histórico com seus prédios decorados com luzes elétricas.

Uma cópia em nitrato com tingimento foi depositada na Cinemateca Brasileira em maio de 1983 pela Coordenadoria de Cultura do Estado de Minas Gerais e duplicada no laboratório de restauro da Cinemateca em setembro do mesmo ano.

Azas Italianas sob os céos do Brasil
Rio de Janeiro, 1931, 35mm, 190m, preto-e-branco, 9min a 18qps
produtor Ottorino Pietras
origem da cópia Cinemateca Brasileira
A esquadrilha fascista, comandada pelo ministro Italo Balbo, amerissa na Enseada de Botafogo, no Rio de Janeiro, sob aplauso de populares – muitos em embarcações. Um grupo de oficiais passa em revista os soldados perfilados. O comandante Italo Balbo, o embaixador Vittorio Cerrutti e o real cônsul Onorevole Mammalella assistem ao desfile das tropas. O coronel Magdalena, "o intrépido herói de várias façanhas aéreas", posa para a câmara com um grupo de oficiais. No Palácio do Catete, Balbo e Cerrutti são recebidos pelo presidente do Governo Provisório, Getúlio Vargas, e seus ministros.
Cópia em nitrato e contratipo em acetato depositados na Cinemateca Brasileira pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Cópia em acetato feita no laboratório de restauro da Cinemateca Brasileira dentro do projeto Resgate do Cinema Silencioso Brasileiro, patrocinado pela Caixa Econômica Federal.
CINEMA AMADOR
Passos na madrugada
Porto Alegre, 1949, 16mm, 279m, preto-e-branco, 30min a 20qps
companhia produtora Estúdio Moinhos do Vento; direção Fernando Machado Moreira; elenco Zilah Rosa de Moreira, Paulo Agrifoglio, Marilia Agrifoglio, Luiz Escobar, Alberto Ruschel
origem da cópia Restaurado pela Cinemateca Brasileira a partir de reversível original 16mm de imagem encaminhado pela Cinemateca Capitólio de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

Jovem convida seus amigos para passar um final de semana em sua rica propriedade. Durante a madrugada, com todos reunidos na casa, um crime acontece. O delegado e seus assistentes são convocados para investigar o caso.

O Caso da joalheria
Porto Alegre, 1961, 16mm, 107m, preto-e-branco, 12min a 20qps
companhia produtora Equipe Cinematográfica do Sul; direção João Carlos Caldasso; roteiro Alpheu Ney Godinho; direção de fotografia Alpheu Ney Godinho, Antonio Oliveira; elenco Ivo Conto, Alberto de los Santos, Marcia Regina, João Carlos Caldasso, Hector Arroyo, Maria do Horto Martins, Antonio Oliveira, Atilio de Conto, Alpheu Godinho, Dario de Conto, João Carlos Silva, Edison Nequete, David Camargo, Anibal Damasceno Ferreira
origem da cópia Restaurado pela Cinemateca Brasileira a partir de reversível original 16mm de imagem encaminhado pela Cinemateca Capitólio de Porto Alegre, Rio Grande do Sul

Quatro homens planejam o roubo de uma joalheria situada na avenida Farrapos. Um incidente acaba frustrando seus planos.

GILBERTO ROSSI


Exemplo Regenerador
São Paulo, 1919, 35mm, 190m, preto-e-branco com viragem, 7min a 16qps
companhia produtora Rossi Film; produtor Gilberto Rossi; diretor José Medina; roteiro José Medina; diretor de fotografia Gilberto Rossi; elenco Lucia Laes (esposa), Waldemar Moreno (marido), José Guedes de Castro (criado), Carlos Ferreira (porteiro)
origem da cópia Cinemateca Brasileira
Um marido farrista deixa a esposa sozinha em casa no dia do aniversário de casamento. O criado, condoído com a tristeza da esposa, imagina um plano para ajudá-la a reconquistar o marido: esposa e criado fingem um adultério, e através de um bilhete anônimo, denunciam a suposta traição da esposa.
O marido, louco de ciúmes, ouve do criado a crua verdade.


Fazenda da Onça (título atribuído)
São Paulo, 1920, 35mm, preto-e-branco, 100m, 6min a 16qps
companhia produtora Rossi Film
origem da cópia Cinemateca Brasileira
Aspectos da Fazenda da Onça. O setor de equinos, a potranca Fusaca e o burro Estudante. Um grupo de peões a cavalo. Uma senhora é destacada pela câmara (provavelmente a proprietária da fazenda). Família posa na escadaria do casarão. Homem ensaca café para iniciar os processos de lavagem e secagem.


Batismo de Carmencita, 25 de junho de 1921 (título atribuído)
São Paulo, 1921, 35mm, 40m, preto-e-branco, 2min a 16qps
companhia produtora São Paulo Natural Film e Rossi e Cia
origem da cópia Cinemateca Brasileira
Um dos assuntos de um cinejornal. Cerimônia de batismo do bebê Carmencita Silveira: padre, familiares, padrinhos e amigos na igreja e na residência dos pais.


Rossi Actualidades n.126 – Um Sarau no Paço de São Cristóvão
São Paulo, 1926, 35mm, 120m, preto-e-branco, 4min, 18qps
companhia produtora Rossi Film
origem da cópia Cinemateca Brasileira
Apresentação da peça "Um sarau no Paço de São Cristóvão" no Teatro Municipal em espetáculo beneficente organizado pela Liga das Senhoras Católicas.


Chegada do aviador De Pinedo a Santo Amaro (título atribuído)
São Paulo, 1927, 35mm, 120m, preto-e-branco, 6min, 16qps
companhia produtora Rossi Film
origem da cópia Cinemateca Brasileira
O Marquês De Pinedo desce no lago de Santo Amaro em seu hidroavião "Santa Maria" e é recebido por grande número de populares às margens do lago. De Pinedo é aclamado na frente do Esplanada Hotel entre personalidades e é escoltado por cavalarianos e guardas em meio a populares.


Força Pública do Estado de São Paulo (título atribuído)
São Paulo, 1925-1930, 35mm, 330m, preto-e-branco, 19min a 16qps
companhia produtora Rossi Film
origem da cópia Cinemateca Brasileira
Essa antologia de reportagens sobre atividades da Força Pública, retiradas de diferentes edições do Rossi Actualidades, preparada pela própria Rossi Film (que colocou seu logotipo no início e no final da coletânea), nos permite observar o excelente trabalho fotográfico dos cinegrafistas da produtora, tendo à frente Gilberto Rossi. Um registro de diversos locais da cidade de São Paulo: o sítio do Barro Branco, onde ficava a sede da corporação; o centro histórico; o palácio do Governo ainda junto ao Pátio do Colégio; a Estação da Luz. Uma evidente contenção muito paulista perpassa essa série de cerimônias em que autoridades civis, militares e eclesiásticas se confraternizam.
O original fazia parte da antiga coleção de nitratos da Cinemateca Brasileira, e foi duplicado na Cinemateca em agosto de 1979.


Fragmentos da vida
São Paulo, 1929, 35mm, 890m, preto-e-branco (de original com viragem), 30min a 16qps
companhia produtora Rossi Film e Medifer; produtor Gilberto Rossi, José Medina, Carlos Ferreira; diretor José Medina; roteiro José Medina, baseado no conto Soap, de O. Henry; diretor de fotografia Gilberto Rossi; elenco Carlos Ferreira (operário e vagabundo), Alfredo Roussy (malandro), Áurea de Aremar (moça), Medina Filho (vagabundo quando criança)
origem da cópia Cinemateca Brasileira
Na construção de uma São Paulo que "crescia desafiando as nuvens", um trabalhador cai de um andaime e, à beira da morte, pede ao filho que trilhe o caminho da "honestidade, do trabalho e da honradez". O filho, no entanto, prefere se tornar um vagabundo, e tudo faz para tornar-se presidiário e com isso garantir meios de sobrevivência. A ação é, involuntariamente, impedida pelos outros. Quando finalmente decide "tornar-se digno pelo trabalho", o vagabundo cai nas mãos da polícia e é preso sob falsa acusação de roubo.

GEORGES MÉLIÈS


Joana d'Arco
Jeanne d'Arco
França, 1900, 250m, colorido a mão, 10min a 24qps
companhia produtora Star Film; produção, roteiro e direção Georges Méliès; elenco Jeanne d'Alcy (Jeanne d'Arc), Georges Méliès, Bleuette Bernon
origem da cópia Lobster Films
A história da guerreira Joana d'Arc contada em 11 cenas, mostrando desde seu nascimento, em Domrémy, em 1412, até sua morte, em Rouen, em 1431.

O Livro mágico
Le Livre magique
França, 1900, 60m, preto-e-branco, 2min37seg a 24qps
companhia produtora Star Film; produção, roteiro e direção Georges Méliès
origem da cópia Lobster Films
As gravuras em tamanho real de um imenso livro ganham vida, uma após a outra, fazendo emergir de suas páginas os personagens clássicos das farsas italianas: Pierrot, Arlequim, Pulcinella, Colombina e Cassandra.

O Sonho do rajá
Le Rêve du radjah ou La Forêt enchantée
França, 1900, 40m, preto-e-branco, 2min25seg a 18qps
companhia produtora Star Film; produção, roteiro e direção Georges Méliès
origem da cópia Lobster Films
Um príncipe indiano adormece em seu palácio e acorda no meio de uma floresta encantada, onde tem que enfrentar ameaçadoras aparições.

O Monstro
Le Monstre
França, 1903, 55m, preto-e-branco, 2min29seg a 24qps
companhia produtora Star Film; produção, roteiro e direção Georges Méliès; elenco Georges Méliès
origem da cópia Lobster Films
Inconsolável em sua viuvez, um príncipe egípcio oferece uma fortuna a um sacerdote para que ele lhe conceda a graça de ver, pelo menos uma vez mais, sua falecida esposa com vida.

O Maravilhoso leque vivo
Le Merveilleux éventail vivant
França, 1904, 90m, preto-e-branco, 3min24seg a 24qps
companhia produtora Star Film; produção, roteiro e direção Georges Méliès
origem da cópia Cinemateca Brasileira
O rei Luis XV da França recebe de presente um leque maravilhoso, ilustrado com figuras femininas que ganham vida.

O Cavaleiro das Neves
Le Chevalier des Neiges
França, 1912, 390m, preto-e-branco, 13min a 24qps
companhia produtora Star Film; produção, roteiro e direção Georges Méliès; elenco Georges Méliès
origem da cópia Cinemateca Brasileira
Um pretendente rejeitado, ajudado pelo diabo – a quem vendeu sua alma –, rapta a princesa com quem queria se casar e a mantém prisioneira. O Cavaleiro das Neves parte em seu resgate.

A Conquista do pólo
À la conquête du pôle
França, 1912, 440m, preto-e-branco, 16min a 24qps
companhia produtora Star Film; produção Georges Méliès e Charles Pathé; roteiro e direção Georges Méliès; elenco Georges Méliès (professeur Mabouloff), Fernande Albany
origem da cópia Cinemateca Brasileira
Versão reduzida da adaptação feita por Méliès do romance de Jules Verne sobre uma expedição ao Pólo Norte realizada por cientistas de todo o mundo.


CINEMA SILENCIOSO ITALIANO


Spergiura!
Traidora!
Itália, 1909, 35mm, 225m, preto-e-branco com viragem e tingimento, 13min a 18qps
companhia produtora Società Anonima Ambrosio; produção Arturo Ambrosio; direção Luigi Maggi, Arturo Ambrosio; direção de fotografia Giovanni Vitrotti; roteiro Arrigo Frusta, baseado no romance La Grande Bretèche, de Honoré de Balzac; elenco Mary Cléo Tarlarini (Bianca Maria), Alberto Capozzi (oficial dos dragões), Luigi Maggi (marquês de Croixmazeu), Luigi Bonelli, Mirra Principi
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

Bianca Maria está apaixonada por um belo oficial dos dragões, e o sentimento é mútuo. Ela espera que o marido, o marquês, saia para que ela possa introduzi-lo em seus aposentos. A traição de uma criada faz com que o marido volte inesperadamente ao castelo.

Restauração realizada em junho de 2009 pela Cineteca di Bologna, pelo Museo Nazionale del Cinema e pela Deutsche Kinemathek – Museum für Film und Fernsehen Berlin, no laboratório L'Immagine Ritrovata, a partir de uma cópia nitrato preservada em Berlim.


Alberto Capozzi (1886 – 1945), filho de uma rica família de armadores de Gênova, entra criança para um seminário, por vontade do pai. Descobre a existência do teatro e se apaixona pelo palco. Aos 17 anos entra para uma companhia dramática e inicia uma bem-sucedida carreira de ator. Em 1909, através de um anúncio publicado em jornais, procura a Ambrosio e, nesse mesmo ano, toma parte em um número considerável de curtas do nascente cinema italiano. 1911 marca a definitiva consagração de Alberto Capozzi e Mary Cléo Tarlarini como o primeiro par ideal do cinema italiano. Ele interpreta papéis de cavalheiro destemido, capaz de sublimes sacrifícios, impetuoso na batalha, lânguido no amor. Seu rosto e seu nome o tornam célebre em todo o mundo – é o divo cinematográfico, com milhões de admiradores e admiradoras fiéis. Seus filmes rendem cifras fantásticas.
Com o início da I Guerra Mundial, monta uma companhia dramática e durante um ano percorre a América do Sul. Um jovem ator da companhia, Vittorio Capellaro, abandona a companhia e permanece no Brasil, onde desenvolverá importante carreira como produtor, ator e diretor de filmes, entre eles duas adaptações de O Guarani. De volta à Itália, Capozzi escreve roteiros, dirige e atua em filmes da Ambrosio; trabalha na Áustra, e se transfere para Roma. De 1923 a 1929 trabalha, sobretudo, em teatro, até ser convidado pelos estúdios da Paramount na França a fazer versões faladas em italiano de filmes americanos. Em seguida trabalha com Alexander Korda na Inglaterra. Com o início da II Guerra Mundial, volta para a Itália e atua em seus últimos filmes.



L'Ave Maria di Gounod
Itália, 1910, 35mm, 147m, preto-e-branco com viragem e tingimento, 8min a 18qps
companhia produtora Società Anonima Ambrosio; direção de fotografia Giovanni Vitrotti; elenco Mary Cléo Tarlarini (Elza), Giuseppe Gray (Janko), Oreste Grandi, Alberto Capozzi
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

Os médicos declaram que não há esperanças para Elza, filha do conde de Ercole. Ela sonha com um recanto escondido numa pequena igreja, oculta numa nuvem de incenso, onde a bela Ave Maria, de Gounod, sobe das sombras da nave. A melodia possui a jovem e, no fundo de seu coração, ela desesperadamente deseja encontrar o violinista.

Cópia restaurada incorporada pelo Museo Nazionale del Cinema em 1994. A restauração foi realizada no Instituut Film Nederland, Amsterdã, a partir de uma cópia em nitrato tingida e virada, com intertítulos em holandês, pertencente à coleção Jean Desmet.


Un Matrimonio interplanetario
Itália, 1910, 35mm, 260m, preto-e-branco, 13min a 18qps
companhia produtora Latium Film; direção Enrico Novelli (com o pseudônimo de Yambo); roteiro Enrico Novelli
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

Um jovem astrônomo estuda as estrelas usando seu telescópio. Ele vê a paisagem lunar e um maravilhoso palácio onde, através de uma janela, uma jovem que observa o céu tão atentamente quanto ele. A jovem alienígena o vê: o amor à primeira vista.

Talvez Alexei N.Tolstoi, autor do romance Aelita (1922), no qual Yakov A. Protazanov baseou seu filme do mesmo nome, tenha visto esse pequeno filme de Yambo (Enrico Novelli). Se a realização, com truques e miniaturas, parece típica do período, as roupas desenhadas para as personagens em alguns cenários são futuristas e próximas ao figurino "construtivista" do filme Aelita (1924).


La Madre e la morte
Itália, 1911, 35mm, 202m, preto-e-branco com tingimento, 11min a 16qps
companhia produtora Società Anonima Ambrosio; direção Arrigo Frusta; direção de fotografia Giovanni Vitrotti; elenco Mary Cléo Tarlarini (a mãe), Ercole Vaser (a morte), Oreste Grandi (o filho com 20 anos), Maria Bay (o bebê), Gigetta Morano, Fernanda Negri-Pouget, Paolo Azzurri, Norina Rasero (Norma)
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

Uma mãe, sentada ao lado do berço de seu bebê, canta um acalanto. Subitamente ela escuta três batidas na porta. Um velho aparece na soleira, com longos cabelos e barbas brancas, curvado e tremendo de frio. Quando a chama crepita, a boa mulher levanta-se alegremente. Ela olha em volta surpresa, com desespero. O velho desapareceu, e o berço está vazio.

Restauração realizada a partir de uma cópia nitrato tingida com 149m, com intertítulos italianos, pertencente ao acervo da produtora Ambrosio, preservada na Cineteca Italiana, Milão. Um contratipo e uma cópia colorida pelo processo Desmet foram feitos no laboratório L'Immagine Ritrovata, Bolonha, em 2007.


A empresa cinematográfica Ambrosio foi fundada em 1906, em Turim, por Arturo Ambrosio e Alfredo Gandolfi, primeiro como Società Ambrosio & C. e, em seguida, como Società Anonima Ambrosio. Em 1908, depois de inaugurar seus estúdios, inundou o mundo com seus curtas, passando às produções de mais de um rolo e aos longas a partir de 1911. Em 1912 e 1913, a Ambrosio lançou cerca de 200 filmes por ano, dividindo com a Cines o papel de principal produtora italiana no mercado internacional. Conquistou grande reputação internacional com a chamada serie d'oro, uma linha de dramas históricos lançados a partir de 1909. Estes filmes serviram de cartão de visitas para os negócios da empresa e ajudaram a colocar o cinema italiano num lugar de destaque no cenário mundial. Entre os títulos mais famosos da serie d'oro estão Spergiura! (1909) e uma segunda versão do Gli ultimi Giorni di Pompei (1913). Em 1911, a empresa recebeu o prêmio de melhor filme artístico e melhor documentário na Exposição Internacional de Turim com o drama Nozze d'oro (1911) e o documentário La vita delle farfalle (1911). A Ambrosio conquistou o públco com as comédias anárquicas de Marcel Fabre (conhecido como Robinet) e Ernesto Vaser (famoso como Fricot) e também com comédias mais sofisticadas, estreladas por Gigetta Morano, Rodolfi Eleuterio e Camillo Riso. Ficou famosa também pela produção de atualidades, travelogues e filmes científicos. Mesmo assim, a Ambrosio começou a perder espaço no mercado internacional para a concorrente Cines. Os problemas se agravaram com a I Guerra Mundial e a decisão da Itália de se juntar às forças aliadas. O governo requisitou seus estúdios para a construção de hélices de avião, o que levou a produção a despencar. Após a guerra, a Ambrosio tentou reerguer-se através de produções caras que resultaram em prejuízo. Em 1923, Arturo Ambrosio deixou a empresa. No mesmo ano, a produção parou, e no seguinte, a empresa foi dissolvida. Em duas décadas, a Ambrosio lançou 1.400 filmes, mas apenas dez por cento sobrevive nos arquivos de filmes de Turim, Amsterdã, Londres, Gemona, Bolonha e Roma.


Sogno di un tramonto d'autunno
Sonho de um crepúsculo de outono
Itália, 1911, 35mm, 313m, preto-e-branco com viragem e tingimento, 16min a 18qps
companhia produtora Società Anonima Ambrosio; produção Arturo Ambrosio; direção Luigi Maggi; direção de fotografia Giovanni Vitrotti; roteiro Arrigo Frusta, baseado na peça teatral de Gabriele D'Annunzio; elenco Antonietta Calderai (Pantea), Mary Cléo Tarlarini (Gradeniga), Mario Voller Buzzi, Gigetta Morano, Oreste Grandi, Paolo Azzurri, Lola Visconti Brignone, Filippo Costamagna, Ernesto Vaser, Ercole Vaser, Giuseppina Ronco
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

Graças a sua criada, Gradeniga descobre que seu amante Orseolo está flertando com Pantea. Enquanto os dois namoram num barco durante uma festa, Gradeniga invoca uma feiticeira para punir a rival.

Em 1911, Arturo Ambrosio, dono da produtora de Turim que tinha seu nome, comprou de Gabriele D'Annunzio os direitos cinematográficos de três de suas obras, La Figlia di Iorio, La Fiaccola sotto il moggio e Il Sogno d'un tramonto d'autunno, juntamente com três obras a serem futuramente selecionadas da produção literária do escritor. Estas acabaram sendo L'Innocente (da qual Luchino Visconti dirigiria também uma adaptação em 1976), La Nave e La Gioconda.
De acordo com o contrato, D'Annunzio deveria, em dezoito meses, entregar os roteiros e descrições de temas para publicidade. Na verdade, após embolsar 24 mil liras em ouro, o escritor esqueceu-se completamente de suas obrigações. Ambrosio encarregou Arrigo Frusta das adaptações, e Eduardo Bencivenga e Luigi Maggi das direções. Os seis filmes receberam reações críticas muito reticentes. Sogno d'un tramonto d'autunno teve uma recepção melhor, sobretudo na Inglaterra e nos Estados Unidos. Os críticos do London Bioscope e do New York Moving Picture World ficaram impressionados com esta saga de superstição medieval, e dedicaram ao filme longas críticas elogiosas.

Cópia restaurada adquirida pelo Museo Nazionale del Cinema em 1989. Restauração executada pelo Instituut Film Nederland, em Amsterdã, a partir de uma cópia nitrato tingida com intertítulos em holandês, pertencente à coleção Jean Desmet.


Gabrielle D'Annunzio (1863 –1938) foi poeta, dramaturgo, jornalista e romancista. Foi também político excêntrico e herói de guerra, chegando a pilotar caças durante a I Guerra Mundial. Nesse período, também liderou um golpe separatista na região de Fiume, na Croácia, a fim de anexar a cidade à Itália. Desgostoso com as autoridades de seu país, e disposto a se tornar o duce de Fiume, viu seu projeto ruir após ser alvo de um bombardeio da marinha italiana. Sua polêmica carreira política foi também marcada pelo entusiasmo com o fascismo e pelo encanto com Benito Mussolini, o que lhe rendeu um funeral de Estado. Filho de um rico proprietário de terras, D'Annunzio iniciou sua carreira literária em 1882 com os poemas de Canto Novo. No teatro, escreveu peças para estrelas internacionais como Eleonora Duse, de quem foi amante, e Sarah Bernhardt. Entre alguns de seus principais textos estão Il Fuoco (1900), Francesca da Rimini (1902) e La Figlia di Ioro (1903). As obras de Gabriele D'Annunzio e seu estilo tiveram forte influência sobre o cinema italiano dos primeiros tempos. O autor também colaborou com a criação de Cabiria (1914), de Giovanni Pastrone.


Em 1911, por ocasião do cinquentenário da unificação da Itália, teve lugar em Turim uma extraordinária Exposição Internacional da Indústria e do Trabalho que realizou, entre os eventos de maior importância, o primeiro concurso cinematográfico dividido em várias categorias.
Os vencedores do Prêmio Concurso Internacional de Cinematografia foram: Nozze d'oro, de Luigi Mazzi (Società Anonima Ambrosio), primeiro prêmio da categoria artística; La Vita delle farfalle, de Roberto Omegna com argumento de Guido Gozzano (Società Anonima Ambrosio), primeiro prêmio da categoria científica; e Il Tamburino sardo (Cines), primeiro prêmio da categoria didática.
O concurso de 1911, ao mesmo tempo que afirmou o filme narrativo que se tornaria o modelo predominante na história da fruição do espetáculo cinematográfico, evidenciou a importância do cinema como meio de investigação científica, precioso suporte técnico para o estudo de fenômenos naturais imperceptíveis de outra maneira, e como instrumento privilegiado também no âmbito educativo e didático.

Os três filmes foram restaurados por iniciativa do Museo Nazionale del Cinema. A restauração de La Vita delle farfalle foi baseada em diversos materiais nitrato e acetato em versão italiana, conservados no Museo, e em uma cópia nitrato em versão francesa conservada na Cineteca Nazionale, Roma. A intervenção foi realizada pelo laboratório L'Immagine Ritrovata, Bolonha, em 1997. A restauração de Il Tamburino sardo foi baseada em uma cópia nitrato em versão italiana conservada na Cineteca Nazionale.


Nozze d'oro
Bodas de ouro
Itália, 1911, 35mm, preto-e-branco com fingimento, 23min a 18qps
companhia produtora Società Anonima Ambrosio; produção Arturo Ambrosio; direção Luigi Maggi; roteiro Arrigo Frusta; direção de fotografia Angelo Scalenghe; elenco Alberto Capozzi (avô/soldado), Mary Cléo Tarlarini (avó/camponesa), Luigi Maggi (pai da camponesa), Giuseppe Gray (oficial austríaco), Paolo Azzurri (capitão), Mario Voller Buzzi, Ernesto Vaser
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

Um homem festeja os cinquenta anos de casamento e reúne a família. Ele é um veterano da segunda guerra de independência do Ressurgimento italiano e conta aos netos um episódio acontecido a 30 de maio de 1859, na véspera da batalha de Palestro. Um jovem soldado é encarregado pelos superiores de atravessar as linhas inimigas, conseguir munições junto à tropa italiana e defender um edifício do assalto dos austríacos. Na tentativa, o rapaz é ferido e se refugia num casebre onde moram um camponês e sua filha, que trata do soldado.

Il Tamburino sardo
O Tambor sardo
Itália, 1911, 35mm, 211m, preto-e-branco com tingimento e viragem, 12min a 16qps
companhia produtora Cines; direção Umberto Paradisi; roteiro baseado em texto de Edmondo De Amicis
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

1848: início das lutas do Ressurgimento que culminou com a unificação da Itália. O exército austríaco cerca uma companhia de soldados italianos refugiados numa casa isolada em pleno campo. Os oficiais enviam um jovem tambor em busca de ajuda. O jovem é ferido na perna, mas, mesmo assim, executa bravamente sua missão.

2008 marcou o centenário da morte de Edmondo de Amicis, autor de Cuore (1886), um dos livros mais populares da literatura italiana juvenil, com numerosas adaptações cinematográficas silenciosas e sonoras. Sobrevivem nos arquivos italianos de filmes, alguns ainda em nitrato esperando restauro: Il Tamburino sardo, produzido pela Cines, o mais antigo documento cinematográfico dedicado ao romance de De Amicis; La Piccola vendetta lombarda (1915), dirigido por Vittorio Rossi-Pianelli; Il Piccolo scrivano fiorentino (1915), Il Piccolo patriota padovano (1915) e Sangue romagnolo (1916), todos de Leopoldo Carlucci; Valor civile (1916), Naufragio (1916) e Dagli Appennini alle Ande (1916), todos de Umberto Paradisi.


La Vita delle farfalle
Itália, 1911, 35mm, 260m, preto-e-branco com tingimento, 15min a 16qps
companhia produtora Società Anonima Ambrosio; direção Roberto Omegna; direção de fotografia Roberto Omegna; roteiro Roberto Omegna
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

O documentário La Vitta delle farfalle [...] constitui um precioso testemunho para a história do cinema científico e uma comprovação dos méritos de Omegna no setor específico das técnicas especiais que caracterizam a cinematografia como instrumento de investigação e documentação. No filme, a técnica da filmagem quadro-a-quadro na qual Omegna demonstra ser um especialista é muito bem empregada. Ela rende bons resultados na sequência toda da metamorfose da larva, da saída do casulo e da despregadura das asas, condensando em poucos minutos os tantos dias em tempo real deste processo de transformação biológica. Se ainda hoje – apesar do bombardeamento de imagem a que estamos submetidos pelos meios de comunicação de massa – nos maravilhamos diante das alterações de tempo real tornadas possíveis pelo uso de técnicas especiais da cinematografia científica, quem dirá do efeito de assombroso que a sequência provocou poucos anos depois da invenção da por si só já espantosa do cinema. (Virgilio Tosi, Bianco e Nero, n.3, maio/junho 1979)


Il Fascino della violenza
Itália, 1912, 35mm, 462m, preto-e-branco com viragem, 15min a 16 qps
companhia produtora Cines; direção Giulio Antamoro; elenco Francesca Bertini (Annarella), Cesare Maltini (Salvatore), Giovanni Corte (Carmine)
origem da cópia Cineteca del Comune di Bologna

Annarella tem aversão ao marido, Carmine, um pobre mecânico. Também o vigia Salvatore, amigo do casal, o trata com desprezo. Um dia, o casal é convidado por Salvatore para uma viagem ao campo, passeio no qual Carmine surpreende sua esposa e o vigia aos beijos. Dias depois, Salvatore tenta fazer com que seus companheiros de trabalho entrem em greve e, por isso, é despedido.

Restaurado pelo Instituut Film Nederland, em Amsterdã.


Francesca Bertini (1892 -1985), nome artístico de Elena Seracini Vitiello, recebeu desde cedo o incentivo para ser atriz. É considerada a principal diva do cinema italiano. Filha de um casal de artistas do teatro, mudou-se para Roma e trabalhou nas primeiras apresentações do drama Assunta Spina, de Salvatore Di Giacomo, texto que ela mesma levaria às telas em 1915. A jovem também figuraria nos palcos e nos filmes realizados pela nascente indústria cinematográfica italiana. Seus primeiros papéis significativos foram feitos em 1910 em produções da Film d'Arte, sucursal italiana da francesa Pathé. Nessa época, protagonizou películas dedicadas a heroínas femininas, incluindo personagens de Shakespeare, como Re Lear (1910) e Il Mercante di Venezia (1911), de Gerolamo Lo Savio. Pela Cines, participou de Il Fascino della violenza (1912), de Giulio Antamoro. Depois migrou para a Celio, e nela encontrou espaço para desenvolver seu trabalho no longa. Entre os filmes desse período, destaca-se L' Historie d'un Pierrot (1913), de Baldassare Negroni. Dois anos depois, interpreta a personagem principal de Assunto Spina, um dos pontos altos de sua carreira, filme em que assume também a direção ao lado de Gustavo Serena. Em 1921, depois de marcar a história do cinema italiano, Francesca Bertini abandona sua carreira nas telas.


Raggio di sole
Raio de sol
Itália, 1912, 35mm, 278m, preto-e-branco com tingimento, 14min a 18qps
companhia produtora Società Anonima Ambrosio; direção Arrigo Frusta; roteiro Arrigo Frusta; elenco Fernanda Negri-Pouget, Paolo Azzurri
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

Um príncipe, que vive no reino de seu pai, um país frio e nevoento, está doente, e os doutores informam ao rei de que ele padece de uma doença incurável. O rei percebe que seu filho deseja um raio de sol. Em vão, os astrônomos do reino trabalham com seus instrumentos para encontrar o Astro-rei.

O roteiro de Arrigo Frusta, conservado no Museo Nazionale del Cinema, possibilitou identificar o filme e confirmar que a cópia conservada é a que está quase completa. Graças a um projeto conjunto da Cineteca di Bologna, do Museo Nazionale del Cinema e da Cineteca del Friuli, Gemona, o filme foi duplicado no laboratório L'Immagine Ritrovata, Bolonha, em setembro de 2007, a partir de uma cópia tingida em nitrato com intertítulos em espanhol conservada na Filmoteca de Catalunya, Barcelona. As cores foram reproduzidas usando-se o método Desmet.


Le Avventure straordinarissime di Saturnino Farandola
Itália, 1914, 35mm, preto-e-branco com tingimento e viragem, 78min a 18qps
companhia produtora Società Anonima Ambrosio; direção Marcel Fabre, Luigi Maggi; roteiro Guido Volante, baseado no romance de Ferdinand Robida; direção de fotografia Ottavio De Matteis; direção de arte Enrico Lupi, Decoroso Bonifanti; elenco Marcel Fabre (Saturnino Farandola), Nilde Baracchi (Mysora), Filippo Castamagna, Luciano Manara, Alfredo Bertone, Luigi Stinchi, Armando Pilotti, Dario Silvestri, Vittorio Tettoni, Oreste Grandi
origem da cópia: Fondazione Cineteca Italiana

Inspirado no romance Les Voyages très extraordinaires de Saturnin Farandoul, escrito em 1879 pelo francês Albert Robida – exímio ilustrador, caricaturista, gravador, quadrinista, jornalista e autor de romances de antecipação –, foi traduzido e publicado na Itália em 1910, com ilustrações do autor. Estas aventuras literárias que incorporam em sua trama algumas personagens célebres de Júlio Vernes são narradas com grande ironia, e teriam inspirado inclusive Georges Méliès. O material também interessou ao produtor Arturo Ambrosio, que pediu a Marcel Fabre (1885-1927) uma adaptação do romance para o cinema. Este, cujo verdadeiro nome era Marcel Perez Fernandez, palhaço e equilibrista espanhol, tornou-se famoso no cinema graças ao personagem Robinet. Fabre não só encarna o protagonista da fantasia imaginada por Robida como também a codirige, juntamente com Luigi Maggi (1867-1946). Le Avventura straordinarissime di Saturnino Farandola é uma das maiores e mais espetaculares produções dos estúdios Ambrosio, e foi lançado como seriado, originalmente dividido em 18 episódios de 20 minutos, cuja maioria se perdeu, entre estes um em que Saturnino se encontra com o Capitão Nemo, famosa personagem de Júlio Verne. Do seriado restaram apenas quatro episódios: A Ilha dos macacos, A Procura do elefante branco, A Rainha dos Makalolos e Farandola contra Phileas Fogg. O filme, do mesmo modo que o livro, pode ser visto tanto como pastiche quanto homenagem ao universo de Júlio Verne. Seus cenários exuberantes nos remetem diretamente às obras de Georges Méliès, especialmente a sequência em que Saturnino passeia no fundo do mar com a sua amada.


Polidor al club della morte
Itália, 1913, 35mm, 196m, preto-e-branco com tingimento, 10min a 18qps
companhia produtora Pasquali & C.; direção Ferdinand Guillaume; elenco Ferdinand Guillaume (Polidor)
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

Polidor lê no jornal que há um clube cujos membros tiram a sorte para decidir qual cometerá suicídio. À noite, Polidor sonha ir ao clube da morte. Claro, o feliz ganhador da noite é exatamente Polidor. Notando sua hesitação, os outros membros ficam prontos para executar a façanha eles próprios, mas Polidor não se rende fácil. Ele consegue escapar provocando a maior confusão.

Preservação feita pelo Museo Nazionale del Cinema a partir de uma cópia nitrato. Um contratipo e uma cópia preto-e-branco, em acetato, com intertítulos copiados em filme colorido foram executados no laboratório Haghefilm, em Amsterdã, em 1998.


Gli Ultimi giorni di Pompei
Itália, 1913, 35mm, ...m, preto e branco, 88min a XXX qps

companhia produtora Società Anonima Ambrosio; produção Arturo Ambrosio; direção Eleuterio Rodolfi; roteiro Mario Caserini, baseado no romance de Edward George Bulwer-Lytton; elenco Fernanda Negri-Pouget (Nidia), Eugenia Tettoni Florio (Jone), Ubaldo Stefani (Glaucus), Vitale De Stefano (Claudio), Antonio Grisanti (Arbace), Cesare Gani-Carini (Apoecide), Ercole Vaser, Carlo Campogalliani

origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

Em 79 AD, o respeitável pompeiano Glaucus tem um ato de generosidade ao comprar Nídia, uma escrava cega que é maltratada por sua dona. Nídia apaixona-se pelo novo mestre, mas ele só tem olhos para Jone. Esta, por sua vez, é cobiçada por Arbace, sacerdote egípcio de Ísis. Quando Nídia implora o auxílio de Isis para conquistar o coração de Glaucus, Arbace dá a ela uma poção de amor que afeta a mente, mas não o coração de Glaucus.

 

Por razões óbvias, a história antiga era um tema popular para os primeiros realizadores italianos, que podiam utilizar cenários locais a um custo relativamente baixo. A Itália também tinha vantagens devido ao clima mediterrâneo e à excelente luz natural. Em 1913, dois grandes espetáculos italianos foram realizados: Quo vadis (Enrico Guazzoni) e Gli Ultimi giorni di Pompeii. Ambos filmes de longa-metragem que comprovadamente influenciaram D.W. Griffith na realização de The Birth of Nation/O Nascimento de uma nação (1915).

 

A restauração foi realizada pelo Museo Nazionale del Cinema e pela Cineteca di Bologna. A análise das várias cópias do filme revelou a existência de pelo menos dois negativos: um para o mercado europeu e outro para os Estados Unidos. Decidiu-se utilizar a cópia em nitrato, tingida e com viragem, com intertítulos em alemão, conservada pela Fundação Friedrich Wilhem Murnau, como matriz principal para a restauração, já que se tratava de uma cópia de primeira geração e em excelentes condições. As lacunas foram preenchidas a partir de uma cópia nitrato incompleta com intertítulos italianos conservada na Cineteca Italiana, em Milão. Os intertítulos faltantes foram reconstruídos baseados em documentos conservados pelo Museo Nazionale del Cinema. A fonte de referência para as cores foi a cópia nitrato alemã, pois a cópia conservada em Milão era posterior, com uma coloração diferente, mais rica em alguns momentos mas menos fiel à coloração de 1913. A análise da cor entre as perfurações permitiu recuperar os tons que haviam desaparecido das imagens. Uma cuidadosa comparação de documentos (sobretudo o roteiro e folhetos com comprimento e sinopses) com as cópias do filme possibilitou a verificação da ordem da montagem e a reordenação de algumas cenas. A restauração foi realizada no laboratório L'Immagine Ritrovata, em Bolonha.


Assunta Spina
Itália, 1915, 35mm, preto-e-branco com tingimento e viragem, 72min a 16qps
companhia produtora Caesar Film; produção Giuseppe Barattolo; direção Gustavo Serena; roteiro Gustavo Serena, Francesca Bertini, baseado em peça teatral de Salvatore Di Giacomo; direção de fotografia Alberto G. Carta; elenco Francesca Bertini (Assunta Spina), Gustavo Serena (Michele Boccadifuoco), Carlo Benetti (Don Federigo Funelli), Luciano Albertini (Raffaele), Amelia Cipriani (Peppina), Antonio Cruichi (Pai de Assunta), Alberto Collo (Oficial)
origem da cópia Cineteca del Comune di Bologna

Nápoles, início do século XX. Assunta Spina é uma bela engomadeira de roupa, noiva de Michele e perseguida por Raffaele. Um dia, durante o piquenique de aniversário de Assunta em Posilipo, ela dança com Raffaele para causar ciúmes em Michele. Enfurecido, ele marca o rosto de Assunta, é preso e condenado a dois anos. No tribunal, Assunta é assediada por Federigo, funcionário que se oferece para fazer com que Michele cumpra a pena em Nápoles. A moça aceita o oferecimento de Federigo e se torna sua amante. Na véspera de Natal, Assunta espera o amante, mas quem chega é Michele, solto antes do previsto. Assunta confessa tudo, e Michele, louco de ciúmes, mata o rival com uma facada. Quando chegam os policiais, Assunta assume o crime e é levada para a prisão.

Assunta Spina foi conhecido até 1993 por uma edição feita pela Cineteca Italiana a partir do negativo original sem intertítulos. A Cineteca di Bolonha recebeu da Cinemateca Brasileira uma versão da época em que o filme foi distribuído, uma cópia em nitrato com os intertítulos originais traduzidos para o português. Desta forma, o texto, o grafismo e a coloração original puderam ser reestabelecidos, e algumas novas cenas foram integradas ao antigo material. Isso resultou diferenças na definição fotográfica e no ritmo das cenas em relação à versão anterior.
Salvatore Di Giacomo havia tido contatos com a Morgana-Film para a adaptação cinematográfica da peça "Assunta Spina" em 1914, e algumas revistas anunciaram também o elenco, que seria composto pelo ator siciliano Giovanni Grasso e por Adelina Magnetti, a atriz napolitana que, em 1909, interpretara o drama no teatro. O filme acabou sendo realizado pela Caesar Film; apesar disso, parece que existe, em posse dos herdeiros da Magnetti, um trecho filmado durante as récitas teatrais. E por muito tempo acreditou-se que a versão de Serena não fosse a primeira adaptação do trabalho de Di Giacomo – que teve, depois, outras versões: em 1929 com Rina De Liguoro; em 1948 com Anna Magnani, e mais recentemente, falou-se num enésimo remake com Angela Luce e Mario Merola.
Ainda em favor da edição de 1915 – uma das obras mais intensas de todo o cinema silencioso italiano, pelo menos do que conhecemos dele – existe um depoimento dado por Gustavo Serena dez anos antes de sua morte.
Segundo Serena, se confirmam as repetidas afirmações de Francesca Bertini a propósito de sua colaboração direta na realização do filme.
"E quem podia detê-la? A Bertini ficou tão exaltada com o fato de interpretar o papel de Assunta Spina, que virou um vulcão de ideias, de iniciativas, de sugestões. Em perfeito dialeto italiano, organizava, comandava, desafiava os parceiros, os pontos de vista, a angulação da câmara e, quando não ficava convencida com uma cena, queria refilmá-la de acordo com sua concepção. Ficou num verdadeiro estado de graça, como eu também fiquei, tanto quanto Carlo Benetti e o fotógrafo Carta. Alberto Collo nos visitou e quis aparecer no filme: foi a Bertini que inventou o personagem do oficial da guarda que se intimida ao ter que prender Assunta Spina no final. Foi, acredito, o primeiro exemplo de participação especial extraordinária." (Il Cinema Ritrovato, 1993)


Il Fuoco
Itália, 1915, 35mm, 1.035m, preto-e-branco com viragem e tingimento, 51min a 18qps
companhia produtora Itala Film; direção Giovanni Pastrone; roteiro Febo Mari; direção de fotografia Segundo de Chomón; elenco Pina Menichelli (Poetisa), Febo Mari (Mario Alberti)
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

Um ardente crepúsculo inspira uma poetisa e um pintor, que até então não se conheciam. Ele apaixona-se loucamente pela mulher, pela qual abandona a própria mãe. Ela o apresenta à sociedade e ele alcança a fama ao retratar num quadro a bela poetisa. Esta, porém, se cansa da aventura e relega o pintor a uma prematura decadência.

O restauro foi realizado pelo Museo Nazionale del Cinema a partir de um contratipo em acetato com intertítulos em italiano feito na década de 1960. A cópia foi reconstruída de acordo com a edição mencionada em anotações de trabalho e do certificado de censura conservados no Museo Nazionale del Cinema. Os intertítulos com textos modificados ou faltantes foram reproduzidos baseados nos intertítulos impressos em cartões. As indicações de coloração seguiram indicações das anotações de trabalho, e tingimentos e viragens foram recriados com as mesmas técnicas da época da produção do filme..

A diva de Pina Menichelli em Il Fuoco é a pura e inalterada femme fatale. Como a maioria das divas do cinema italiano do período, ela se move sinuosamente e com elegância, dando-se muito mais para a câmara do que para o homem que ela seduz. Mas, diferentemente de muitas outras divas, aqui ela não é tocada por nenhuma doença fatal, aparições assombrosas ou mesmo por uma reputação duvidosa. Pela primeira vez, a mulher é tão artista quanto o homem. […] Ela é uma predadora experiente. Seu adorno de cabeça em forma de coruja, os dentes cerrados e os lábios entreabertos revelam um instinto animal para a caça, mas não para a devoração da presa. O prazer maior da mulher é estimular o animalzinho, que é o pintor: brincar com ele e depois descartá-lo. Orquestrada já a criação da obra-prima do pintor – um retrato a óleo dela mesma –, ele deixa de ter serventia.
O filme pergunta: que tipo de diva não paga com o preço da paixão? A diva que explica com lucidez as regras do jogo antes de jogá-lo. Surpreendentemente ética para uma femme fatale, Menichelli, antes de mais nada, explicita as regras para a presa: prefere então a chama que queima devagar ou a que queima rápido […], que rapidamente se consome em cinzas? Como era de se esperar, a presa escolhe o grande fuoco vermelho, talvez não percebendo que é ele, e não ela, que terminará em cinzas. "Incendeie-me!", ele grita, trocando a constância e a respeitabilidade de classe média (representada por sua dedicada mãezinha) pelo fogo da diva. E esse amor, efetivamente, queima rápido demais – o tempo somente de pintar o seu retrato, que de imediato se reconhece como obra-prima.
[…] A poetisa de Menichelli tem prazer apenas com seu próprio prazer. Ao aprazer-se a despeito de um notável desdém pelo visível objeto de seu prazer, ela exerce um tipo muito puro de narcisismo. Todos os seus movimentos de sedução são ativados por uma força oposta que simultaneamente afasta o que ela precisa atrair de todas as maneiras, mesmo que apenas para poder dispensar e comprazer-se solitariamente.
As divas italianas são conhecidas por seu gestual convulsivo e tortuoso, mas observar Menichelli seduzir sua jovem presa de forma tão rápida para em seguida livrar-se dela é compreender verdadeiramente as forças de atração e repulsão. Num maravilhoso toque final de realismo, o artista nota um sinal no colo da diva e o adiciona à pintura. Aborrecida, a poetisa de Menichelli o apaga, novamente corrigindo sua obra, talvez porque atrapalhe o ideal de beleza de sua nudez, mas talvez também porque a torne reconhecível para o público. Ela procura ao mesmo tempo o reconhecimento e o anonimato. No fim, o único traço possível de pesar que a diva demonstrará se configura como outro gesto narcisista: ao tocar o sinal em seu colo, resta a memória de uma paixão consumida pelo fogo. (Linda Williams, Pordenone 2010)

[...] recordo aquelas mulheres de passo vacilante e convulso, as mãos de náufraga do amor acariciando as paredes pelos corredores, agarrando-se às cortinas e às plantas, aquelas mulheres cujo decote deslizava em continuação às mais nuas espáduas da tela, em uma noite sem fim, entre ciprestes e escadas marmóreas. Naquela época crítica e turbulenta do erotismo, as palmas e as magnólias eram literalmente mordidas, dilaceradas pelos dentes dessas mulheres cujo aspecto frágil e pré-tuberculoso não exclui, porém, formas audaciosamente modeladas de uma juventude precoce e febricitante. Em um daqueles filmes, intitulado Il Fuoco, era possível ver Pina Menichelli completamente sua sob um vestido de plumas que representavam um mocho, apenas com o objetivo explícito de justificar um simbólico paralelo, muito rudimentar e deplorável, entre o mocho nela encarnado e um fogo (o do amor) que ela acabava de acender com suas mãos fatais, diante dos olhos devastados, desmesuradamente cercados de indiscutível onanismo, de Gustavo Serena [na verdade, Febo Mari], o qual, a partir daquele instante, não fazia outros movimentos senão os indispensáveis, automáticos e deprimentes que lhe permitiam a descida progressiva até saltar na água do lago, completando-se a expansão dos círculos concêntricos e habituais que restabeleciam a calma nas águas, após o suicídio, o epílogo do filme. (Salvador Dalí, Babaouo, scenario inédit. Précédé d'un abrégé d'une histoire critique du cinéma et suivi de Guillaume Tell, ballet portugais)


Giovanni Pastrone (1883 - 1959) diplomou-se violinista ao mesmo tempo que concluiu os estudos em Contabilidade. Em 1903, mudou-se para Turim com a mulher, contratado como segundo violinista da orquestra do Teatro Regio. Dois anos depois, foi admitido como contador da companhia cinematográfica Rossi & C., na qual rapidamente chegou ao posto de correspondente estrangeiro. Em 1907 passou a diretor administrativo da empresa, para, em seguida, associado a Carlo Sciamengo, tornar-se proprietário da produtora, rebatizada Itala Film. A empresa rapidamente se expandiu, tornando-se a terceira companhia de cinema mais importante da Itália – depois da Cines e da Ambrosio. Em 1909, Pastrone contratou André Deed, da Pathé, e graças ao sucesso dos curtas estrelados pelo comediante, conseguiu recursos para investir em filmes históricos como La Caduta di Troia (1911), produções elaboradas, de maior duração, que alcançaram reconhecimento internacional. Outro nome importante que Pastrone trouxe da Pathé foi o espanhol Segundo de Chomón, pioneiro do cinema de animação, que deu às produções da Itala apuro técnico, colocando-a na vanguarda internacional em termos de efeitos especiais. Criador das sequências animadas de La Guerra e il sogno di Momi (1916), codirigido com Pastrone, Segundo de Chomón foi o grande responsável pelas inovações técnicas introduzidas em Cabiria (1914), produção colossal da Itala, marco da história do cinema. Pastrone produziu, dirigiu e concebeu Cabiria desde a realização até a distribuição em larga escala por todo o mundo. Por cinquenta mil francos convenceu o cultuado escritor Gabrielle D'Annunzio, sempre endividado, a escrever os intertítulos do filme e a elaborar os nomes exóticos dos personagens, promovendo-o como coautor do filme e dando à produção uma aura de sofisticação. Pastrone também inovou ao investir na infraestrutra de produção, construindo estúdios, antecipando procedimentos de organização que só mais tarde seriam instituídos como padrão, e criando um circuito de salas para distribuição de seus filmes. Quando a moda dos filmes históricos entrou em declínio, tirou Pina Menichelli da Cines para transformá-la na mais fatal das divas, em filmes como Il Fuoco (1915) e Tigre reale (1916), que dirigiu sob o pseudônimo de Piero Fosco. Pastrone também soube aproveitar o carisma da personagem Maciste, de Cabiria, interpretado pelo estivador Bartolomeo Pagano, numa série de filmes de grande apelo popular. Em 1919, no auge do sucesso, abandonou o cinema para se dedicar aos estudos e a experimentos na área médica.


Tigre reale
Itália, 1916, 35mm, 1.600m, preto-e-branco com tingimento e viragem, 78min a 18qps
companhia produtora Itala Film; direção Giovanni Pastrone; direção de fotografia Segundo de Chomón, Giovanni Tomatis; roteiro Giovanni Verga, baseado no romance homônimo de sua autoria; efeitos especiais: Segundo de Chomón; elenco Pina Menichelli (condessa Natka), Alberto Nipoti (Giorgio La Ferlita), Febo Mari (Dolski), Valentina Frascaroli (Erminia), Ernesto Vaser, Enrico Gemelli, Bonaventura Ibáñez, Gabriel Moreau
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

Giorgio La Ferlita, embaixador italiano em Paris, encontra a condessa Natka numa festa. A fascinante beleza da condessa o arrebata. Quando eles se reencontram, confessam seus sentimentos um pelo outro: Natka ama Giorgio, mas quer se matar porque o viu com outra mulher. Depois de aventuras, traições, doenças e dramas, Natka não morrerá porque o amor a redime.

Restauração realizada pelo Museo Nazionale del Cinema a partir de uma cópia tingida e virada doada por Giovanni Pastrone ao museu em 1949. A restauração foi executada em 1993 no laboratório L'Immagine Ritrovata, Bolonha.


Pina Menichelli (1890 -1984) iniciou sua carreira no teatro. Filha de um casal de atores, fez seu primeiro papel nos palcos como atriz de uma companhia teatral que excursionou a Buenos Aires, onde se casou e fixou residência. Entre 1913 e 1914, de volta à Itália, a jovem ingressou na produtora Cines e atuou em mais de 30 filmes. Dentre eles, destaca-se Scuola d'eroi (1914), de Enrico Guazzoni, épico sobre Napoleão. A interpretação de Menichelli chamou a atenção de Giovanni Pastrone. Entusiasmado com a atriz, convidou-a a ingressar na Itala Film. Menichelli partiu então para a sua verdadeira aventura cinematográfica, que a transformaria numa das máximas estrelas italianas. Baseado no romance de Gabriele D'Annunzio, seu primeiro filme pela Itala foi Il Fuoco (1915), foi dirigido por Pastrone. No ano seguinte, novamente sob a direção do cineasta, atuaria em Tigre reale, impressionando o público com seu erotismo. As duas obras transformaram a atriz no arquétipo da mulher fatal, personagem que encarnaria em diversas produções, algumas censuradas. Anos depois, encerrou sua parceria com Pastrone e, na Rinascimento-Film, produtora fundada por seu marido, o barão Carlo D'Amato, atuou em La Storia di una donna (1920). Cansada do cinema, Pina Menichelli retirou-se definitivamente das telas em meados dos anos 1920, chegando a destruir documentos e fotografias sobre sua carreira e recusando qualquer contato com os historiadores do cinema.


Il Fauno
Itália, 1917, 35mm, preto-e-branco com tingimento e viragem, 65min a 18qps
companhia produtora Società Anonima Ambrosio; produção Arturo Ambrosio; direção Febo Mari; direção de fotografia Giuseppe Vitrotti; roteiro Febo Mari; elenco Febo Mari (o fauno), Nietta Mordeglia (Fede), Elena Makowska (Femmina), Vasco Creti (Arte), Oreste Bilancia (Astuzia), Ernesto Vaser (o carreteiro), Fernando Ribacchi, Giuseppe Pierozzi (um jogador)
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

Arte, um escultor da Boêmia, sai uma noite para se encontrar com a encantadora Femmina, uma princesa casada, e deixa em casa sua companheira Fede. Sozinha no estúdio do escultor, Fede tem medo; andando entre as estátuas, encontra uma nota que revela a traição de seu amante. Com o coração partido, adormece na frente da lareira onde uma das esculturas, um fauno, adquire vida e se aproxima. Isso marca o início de um caso de amor, mágico, misterioso e devastador.

Febo Mari era uma figura de grande proeminência no mundo da produção cinematográfica silenciosa italiana. Ator e diretor, produziu e atuou em muitos filmes claramente inspirados em D'Annunzio. Desafiando as regras do cinema comercial, audazmente utilizou simbolismo e mitologia em seus filmes. O Fauno é considerado sua obra-prima.

A restauração foi realizada em 1994 pela Cinémathèque Royale de Belgique, em Bruxelas, e pela Cineteca del Friuli, em Gemona, em colaboração com o MNC, a partir de uma cópia nitrato original pertencente ao Suomen Elokuva-Arkisto, em Helsinque, e de uma cópia 16mm preservada em Turim. A reprodução das cores foi particularmente complexa devido ao refinado método de tingimento e viragem.


La Guerra ed il sogno di Momi
Itália, 1917, 35mm, 762m, preto-e-branco com tingimento e viragem, 42min, 16qps
companhia produtora Itala Film; direção Segundo de Chomón, Giovanni Pastrone; roteiro Giovanni Pastrone; elenco Guido Petrungaro (Momi), Alberto Nepoti (pai), Valentina Frascaroli (mãe), Enrico Gemelli (avô), Stellina Toschi (menina)
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

Um menino folheia um livro e brinca com seus bonecos: é Momi, que espera ansiosamente por novidades de seu pai, soldado, com sua mãe e seu avô. Chega uma carta do front e Momi escuta fascinado a leitura dela, que fala da coragem de um jovem montanhês, Berto. Inspirado pelas palavras da carta, Momi senta-se separado dos outros e brinca com seus dois bonecos: Trick e Track. Como num passe de mágica, Trick e Track adquirem vida e travam uma batalha selvagem, juntamente com outros soldados de madeira.

Restauração realizada pelo Museo Nazionale del Cinema a partir de uma cópia nitrato incompleta, virada e tingida, preservada na Cineteca Italiana, em Milão, de cópias em acetato 35mm feitas na década de 1960, e de material em 16mm copiado durante a década de 1980 e preservado em Turim.
Os diários de produção e o certificado de censura, conservados no Museo, tornaram possíveis a correção de erros de edição e a inserção de intertítulos. A coloração original foi reproduzida usando-se as mesmas técnicas de viragem e tingimento da época em que o filme foi produzido. A restauração, que é dedicada à memória de Maria Adriana Prolo, criadora do Museo, foi realizada em 1991, no laboratório Bruno Favro, Turim.


Malombra
Itália, 1917, 35mm, 1.705m, preto-e-branco com tingimento e viragem, 85min a 16qps
companhia produtora Cines; direção Carmine Gallone; roteiro Carmine Gallone, baseado no romance homônimo de Antonio Fogazzaro; direção de fotografia Giovanni Grimaldi; elenco Lyda Borelli (Marina di Malombra), Amleto Novelli (Corrado Silla), Augusto Mastripietri (Conde Cesare), Amedeo Ciaffi (Steinegge), Consuelo Spada (Edith Steinegge), Giulia Cassini-Rizzotto (Condessa Salvador), Francesco Cacace (Conde Salvador)
origem da cópia Cineteca del Comune di Bologna

Obrigada a viver presa num castelo, condenada a sair de lá apenas no dia do casamento, Marina di Malombra enlouquece e passa a acreditar que está possuída pelo espírito de sua antepassada Cecília, a quem deve vingar a morte trágica.


Quando Lyda Borelli (1887 - 1959) atuou em seu primeiro filme, Ma l'Amor mio non muore (1913), era uma aclamada atriz de teatro e havia contracenado com monstros sagrados, como Eleonora Duse. Este filme, um dos primeiros veículos para uma atriz realizados na Itália, lançou Borelli como a primeira grande diva do cinema italiano. As personagens melodramáticas de Borelli, sua linguagem corporal sofisticada, sua aparência aristocrática e seus longos cabelos loiros levaram as mulheres nas telas e fora delas a imitá-la, criando o que foi chamado de "borellismo". Em 1914, Borelli migrou para a companhia Cines. Em 1918 casou-se com o conde veneziano Giorgio Cini, e retirou-se do mundo do cinema.


Il Miracolo
Itália, 1920, 35mm, 1.511m, preto-e-branco, 50min a 18qps
companhia produtora Monopolio Lombardo; direção Mario Caserini; direção de fotografia Domenico Bazzichelli; elenco Leda Gys (Maria), Goffredo D'Andrea (Arturo), Nella Serravezza, Elena Bottone, Pietro Concialdi
origem da cópia Cineteca del Comune di Bologna

No dia de São Genaro, a jovem Maria, vítima de tuberculose e noiva de Arturo, estudante de medicina prestes a se formar, faz ao santo três pedidos.


Leda Gys (1892 –1957), nome artístico de Giselda Lombardi, realizou seus primeiros trabalhos na produtora Cines. Sob a direção de Baldassare Negroni, protagonizou três filmes curtos e, entre 1913 e 1914, dividindo-se entre a Cines e sua produtora associada, a Celio, participa de mais de 20 películas. Nessa ocasião, provou sua habilidade em diferentes gêneros cinematográficos: no melodrama, no histórico e também na comédia. Nos primeiros tempos de sua carreira, Leda Gys também esboçou traços da personagem que encarnaria em várias produções – a moça ingênua e romântica, de condição nobre ou miserável, vítima inocente de figuras perversas. Sua consagração, no entanto, viria somente com o filme Christus (1916), de Giulio Antamoro, para o qual emprestou seu rosto sofrido à personagem da Virgem. Em 1917 ingressou na Poli-Film, depois de ter sido sediada em Nápoles, novo pólo italiano de criação cinematográfica. Influenciado pelo sucesso do cinema americano, Gustavo Lombardo, dono da Poli-Film, mudaria os rumos de sua produtora, transformando-a na Monopolio Lombardo e adequando as lições estéticas de Hollywood à realidade italiana. Sob a orientação de Lombardo, com quem se casaria pouco depois, atuou em Il Miracolo (1920), de Mario Caserini, e Vedi Napoli e poi muori (1924), de Eugenio Perego. Em 1929, no ápice de sua arte, a atriz abandonou o cinema para se dedicar à criação de seu filho com Gustavo Lombardo.


Trilogia di Maciste
Itália, 1920, preto-e-branco com tingimento e viragem, 133min a 18qps
companhia produtora Itala Film; direção Carlo Campogalliani; roteiro Carlo Campogalliani; direção de fotografia Fortunato Spinolo; elenco Bartolomeo Pagano (Maciste), Letizia Quaranta (Princesa M. Luisa), Carlo Campogalliani (Tito), Vittorio Rossi-Pianelli (Príncipe), Pierre Lepetit (Cioccolatino), Gabriel Moreau, Ria Bruna (Henriette), Felice Minotti, Oreste Bilancia
origem da cópia Museo Nazionale del Cinema

Maciste contro la morte
35mm, 618m, 30min a 18qps

Il Viaggio di Maciste
35mm, 1.130m, 55min a 18qps

Il Testamento di Maciste
35mm, 988m, 48min a 18qps

Bartolomeo Pagano (1878 - 1947) trabalhava como estivador no porto de Gênova antes de ser escolhido por Giovanni Pastrone para o papel do escravo Maciste no épico Cabiria (1914), produção colossal da Itala Film. Há mais de uma versão com a escolha de Pagano para o papel. Uma diz que Pagano teria participado de um concurso para escolher o intérprete da personagem, cujo nome teria sido inventado por Gabrielle D'Annunzio numa alusão a tipos mitológicos de existência não comprovada, e que o gigante foi escolhido pelo próprio Pastrone entre cinquenta concorrentes de toda Itália. A outra versão é de que o ator Domenico Gambino, muito impressionado, teria chamado a atenção de Pastrone para o estivador genovês. Imediatamente após a consagração inesperada da personagem em Cabiria, o produtor fez dele protagonista de uma série de bem-sucedidos longas-metragens, sempre aproveitando seu porte físico e a força descomunal em contraste com o caráter bondoso e casto. Estes filmes não serão mais ambientados na Antiguidade clássica. A maioria dos filmes em que Pagano encarnou Maciste, entre 1915 e 1926, se passa nos dias atuais e em cenários que variam de maneira insólita. Sempre disposto a ajudar, Maciste põe seus músculos a serviço dos mais fracos em todos os lugares em que a imaginação dos roteiristas conseguirem chegar, dos estúdios de cinema da Itala Film até o Inferno, passando pelos campos de batalha na I Guerra Mundial, onde lutará como soldado. Maciste se encaixará perfeitamente no ideário ultranacionalista em ascenção na Itália da época, e há mesmo quem aponte, não de todo sem razão, sua semelhança, principalmente no gestual, com Benito Mussolini. Bartolomeo Pagano chegou a alterar legalmente seu nome para Maciste, e foi, no auge de sua carreira como ator, um dos mais bem pagos do cinema italiano. Com o fim do cinema silencioso, a personagem cairá no esquecimento. No final dos anos 1950, um revival do filme épico na Itália ressucitará o invencível Maciste, trazendo-o de volta às marquises dos cinemas em argumentos ainda mais surreais que os da série original agora obrigando-o a disputar no braço um bom posto na bilheteria com uma turma de concorrentes peso pesado como Hércules, Sansão e Ursus.


Carlo Campogalliani (1885 - 1974) iniciou sua atividade no cinema italiano em 1915, primeiro como ator e depois como roteirista, produtor e diretor. Casou-se com a atriz Letizia Quaranta (1893 - 1977) em 1921, fazendo-a estrela de vários de seus filmes e também do teatro. Durante uma temporada teatral do casal na Argentina, o também italiano Paolo Benedetti, entre nós desde 1897, convidou os dois para estrelarem a primeira coprodução internacional realizada no Brasil, a comédia A Esposa do solteiro / La Mujer de medianoche (1924), dirigida por Campogalliani, filmada em Buenos Aires e no Rio de Janeiro – foi a primeira participação de Carmem Miranda num filme, como figurante. A carreira cinematográfica de Letizia entrou em declínio com a chegada do som, mas Campogalliani continuou na ativa como diretor, assinando inúmeros filmes de gênero, principalmente melodramas e filmes épicos, inclusive retornando à personagem Maciste quando esta voltou à moda nos anos 1960. Sua trajetória cinematográfica parece ter caído em total esquecimento, apesar dos 80 filmes que dirigiu entre 1914 e 1964.


Il Quadro di Osvaldo Mars
O Quadro de Oswaldo Mars
Itália, 1921, 35mm, 1.260m, preto-e-branco, 56min a 16qps
Companhia produtora Rodolfi Film; direção Guido Brignone; direção de fotografia Anchise Brizzi; elenco Mercedes Brignone (condessa Anna Maria di San Giusto), Domenico Serra (Oswaldo Mars), Giovanni Cimara (conde di San Giusto), François-Paul Donadio (camareiro), Armand Pouget (inspetor Rull)
origem da cópia Cineteca del Comune di Bologna

A condessa de San Giusto, aristocrata ociosa que promove reuniões da nobreza em seu castelo, fica aborrecida quando o pintor Oswaldo Mars expõe um quadro de Salomé no qual a ela é retratada. Rumores circulam, insinuando um romance entre a condessa e o pintor, que ela nunca encontrou pessoalmente. Ela decide visitá-lo; pouco depois, o pintor é encontrado morto e, consequentemente, a condessa é a acusada do assassinato.

O Quadro de Oswaldo Mars, completamente ignorado pelo público e quase liquidado pela crítica, é, sem dúvida, um dos filmes mais interessantes que encontramos em nossas pesquisas. É uma outra prova do quão Eleuterio Rodolfi, como diretor e produtor, é tão interessante quanto desconhecido. Filho de Giuseppe Rodolfi, um ator famoso, Eleuterio começou sua carreira como ator de teatro. Contratado pela Ambrosio em 1911, interpretou e dirigiu filmes, entre os quais Os Últimos dias de Pompeia / Gli Ultimi giorni di Pompei. Em 1917 fundou sua própria companhia, a Rodolfi Film, que produziu 41 filmes de longa metragem entre 1917 e 1922. Desses filmes, até agora completamente desconhecidos, seis foram localizados na Cinemateca Brasileira: Roberto Burat, La Fuga di Socrate, Stecchini giapponesi, Il Rosario della colpa, Amleto e Il Quadro di Osvaldo Mars.

Quem matou o jovem pintor hipersensível, cuja única riqueza era o talento e um entusiasmo febril, e que todos acreditavam amante de uma rica condessa? A princípio, a sensação que se tem é que se trata de um folhetim, talvez de um melodrama, mas as expectativas logo são desmentidas. Trata-se de uma intriga policial inteiramente baseada nas declarações de três testemunhas não isentas de suspeitas, e de uma quarta, o mordomo, que, segundo a tradição, deveria ser o culpado. Cada depoimento corresponde a um ou vários flashbacks. Cada flashback tem um alcance e uma extensão diferente, e é marcado por pontuações de diferentes formatos: fusões, abertura e fechamento de íris, cortinas e demais transições – mais de cem efeitos num filme de cerca de uma hora. Esse abuso deliberado das pontuações que contamina toda a película imprime a Oswaldo Mars um desenvolvimento onírico em um contínuo suspense. […] Luzes e sombras, contraluzes e penumbras, claro-escuros à Rembrandt, justificados pela presença constante em campo da fonte luminosa. Iluminação violenta e localizada das figuras, em contraste com a sombra contínua e predominante do fundo. Mas O Quadro de Oswaldo Mars é também um filme metadivístico, no qual o corpo da diva se duplica, se transfigura com os traços de Salomé, privado de sua função narrativa direta, no qual a própria diva não apenas é vítima de uma situação complexa, como nela tem um papel essencialmente secundário. O drama passa pela destruição da imagem divística (o quadro dilacerado) e pela revelação da verdade, a cargo de uma menina emudecida ante a visão do drama. A uma montagem complexa, inédita no cinema italiano da época, que sustenta perfeitamente uma intrincada estrutura narrativa, é preciso acrescentar uma fotografia, uma escolha de enquadramentos e de iluminação que aproxima o filme muito mais do cinema alemão do que do italiano. (Vittorio Martinelli, Divas y Divinas)


'A Santanotte
Itália, 1922, 35mm, 1.285m, 62min
companhia produtora Dora Films; direção Elvira Notari; roteiro Elvira Notari, baseado na canção homônima de E. Scala; direção de fotografia Nicola Notari; elenco Edoardo Notari (Gennariello), Rosè Angione (Nanninella), Antonio Palmieri, Alberto Danza (Tore Spina), Elisa Cava (mãe de Tore), Carluccio
origem da cópia Cineteca Nazionale

A napolitana Elvira Notari (1875 - 1946) é a mais antiga e profícua realizadora do cinema italiano. Além de diretora, era também roteirista e produtora, sócia e fundadora da Dora Film junto com o marido, o diretor de fotografia Nicola Notari. Entre 1906 e 1930, a cineasta escreveu, dirigiu e produziu cerca de 60 longas e filmes de mais de um rolo, uma centena de atualidades e um sem número de curtas. Inspirados sempre na rica cultura popular de sua cidade e na literatura romântica italiana, os melodramas urbanos de Elvira são sempre protagonizados por mulheres e ambientados no submundo daqueles que vivem muito abaixo dos padrões burgueses, em que muitas vezes prevalecem o desrespeito às leis e as histórias de amor sombrias, marcadas pelo ciúme e pela vingança. Filmados quase sempre em locações e com atores não profissionais algumas décadas antes do Neorealismo, e sonorizados durante suas projeções por músicos e cantores populares, os filmes de Elvira Notari foram, por muitos anos, negligenciados pelos estudiosos do cinema italiano.


Vedi Napoli e poi muori
Itália, 1924, 35mm, 1.190m, preto-e-branco com viragem, 57min a 18qps
companhia produtora Lombardo-Film; direção Eugenio Perego; direção de fotografia Vito Armenise; direção de arte Eugenio Perego; elenco Leda Gys (Pupatella), Livio Pavanelli (Billy), Nino Taranto (Irmão de Pupatella)
origem da cópia Cineteca del Comune di Bologna

Billy, empresário americano da cinematografia, com o propósito de rodar um filme sobre as belezas de Nápoles, contrata Pupatella, uma jovem do povo, para o papel de protagonista. Seduzida pela ideia de se tornar uma estrela de cinema, a moça acompanha o produtor quando ele volta aos Estados Unidos, onde os dois iniciam um romance. Um incidente vai despertar o ciúme e a ira de Pupatella, que regressa a Nápoles, mas é seguida por Billy, que está apaixonado.


Za la Mort – der Traum der Za la Vie
L'Incubo di Za La Vie
Itália, 1924, 35mm, 2.550m, preto-e-branco com viragem, 124min a 18qps
companhia produtora F.A.J – Film Der National-Film AG; produção Fern Andra; direção Emilio Ghione; roteiro Emilio Ghione; direção de fotografia Eugen Hamm, Franz Stein; elenco Emilio Ghione (Za la Mort), Fern Andra (La Donna di Mondo), Kally Sambucini (Za la Vie), Magnus Stifter, Henri Sze, Robert Scholz, Ernest Anton Rückert
origem da cópia Cineteca del Comune di Bologna

O bandido Za la Mort e sua companheira Za la Vie juntam esforços para manter a paz no submundo, dando segurança aos cidadãos que circulam pelos locais sombrios do universo subterrâneo parisiense, abrigo de toda espécie de marginais. O casal é o maior obstáculo para um diabólico esquema envolvendo uma personagem mascarada, um misterioso chinês e uma vamp, todos querendo expandir suas atividades criminosas. A quadrilha fará de tudo para eliminar o casal com uma terrível armadilha.

Restaurado no laboratório L'Immagine Ritrovata em 1996 a partir de uma cópia em nitrato conservada na Cinemateca da Iugoslávia. Os intertítulos foram traduzidos para o italiano resgatando o grafismo original, e as cores foram reconstruídas pelo método Desmet.

Emilio Ghione (1879 -1930) iniciou sua carreira como assistente e dublê na nascente indústria cinematográfica de Turim, no final dos anos 1900. Durante o período, também fez papéis secundários em uma grande variedade de filmes. Contratado pela Cines, foi a Roma e atuou numa série de curtas, entre eles S. Francesco, poverello d'Assisi (1911), de Enrico Guazzoni. Empregado da Celio-Film, trabalhou ao lado da atriz Francesca Bertini. Em 1914 apresentou ao público uma de suas mais famosas personagens, Za la Mort, protagonista de Nelly La Gigolette (1915), primeira aventura de uma série de grande apelo popular. Conhecido pela alcunha de "apache", Za la Mort é um marginal ao mesmo tempo sentimental e romântico, implacável e cruel. Seu caráter e suas aventuras nos remetem à tradição do folhetim e às personagens dos filmes de Louis Feuillade, como Judex (1926). Nos anos 1920, diante das condições pouco satisfatórias da produção italiana abalada pela concorrência americana, Emilio Ghione acompanharia o êxodo de muitos técnicos e artistas para a Alemanha. Em Berlim, como parte da equipe da National-Film, roda Za la Mort – der Traum der Za la Vie. O filme é estrelado por Ghione e pela atriz Fern Andra, proprietária da National-Film. Viciado em cocaína, amante da boemia, Ghione falece algumas anos depois vítima de tuberculose.

Mi viene l'idea de criarne uno col nome di Za-la-Mort, que nel gergo degli apaches vuol dire: Viva la Morte! (Emilio Ghione)

Seu nome tem a suave beleza do grito partido de uma boca apunhalada; sua figura, longa e fria, é uma "faca só lâmina"; suas mãos e seus olhos são os de Cesare, o sonâmbulo assassino... Assim é Za, best beloved son da Morte e de um punhal.
A medida da verdade de um personagem e/ou de um autor sempre é dada pela identificação de um ao outro. Ghione, a partir do dia em que concebeu Za-la-Mort, não mais se possuiu, e levou esta estranha associação de dois seres às suas consequências últimas: a destruição mútua. É impossível falar de Ghione sem dizer Za, mesmo porque até antes do momento de vir à luz, este já existia como que intrauterinamente em seu autor, e também porque foi só com Za que ele se descobriu e se realizou. (Gustavo Dahl, Cinema Italiano).


SELEÇÃO DE PORDENONE


Von Morgens bis Mitternachts
[Da manhã à meia-noite]
Alemanha, 1920, 35mm, 1.325m, preto-e-branco, 65min a 18qps
companhia produtora Ilag-Film; produção Herbert Juttke; direção Karl Heinz Martin; roteiro Herbert Juttke, Karl Heinz Martin, baseado em peça teatral de Georg Kaiser; direção de fotografia Carl Hoffmann; direção de arte Robert Neppach; elenco Ernst Deutsch (o caixeiro), Erna Morena (a mulher), Hans Heinrich von Twardowski (o jovem cavalheiro), Frieda Richard (a avó), Lotte Stein (a esposa), Roma Bahn (a filha, a mendiga, a mulher perdida, a mascarada, a moça do Exército da Salvação)
origem da cópia Filmmuseum im Münchner Stadtmuseum

O filme foi expressamente anunciado como "o primeiro filme alemão em preto-e-branco". Durante as filmagens, Martin ("diretor artístico") e Neppach (cenário e figurinos) trabalharam apenas em preto-e-branco, e era proibido tingir as cópias: o expressionismo em seu estado puro, mais "caligarístico" do que Caligari. Baseado na peça homônima de Georg Kaiser, uma história banal sobre o cotidiano reflete o drama da humanidade. "Uma chama arde na cabeça do caixeiro: por uma única vez agarrar o mundo, a vida, a alegria, o prazer de todos os sentidos, agarrar tudo isso por uma vez, com as duas mãos, em qualquer lugar, de qualquer forma. Ele rouba e gasta loucamente o dinheiro: choque na família, mudo estupor no banco. O caixeiro quer explorar a vida real. A vida com tudo que ela tem, em sua magnificência. Vícios, prostitutas, o brilho das luzes" (Rudolf Kurtz, Expressionismus und Film, Berlim, 1926). A censura proibiu o intertítulo final, "Ecce homo", acusando-o de blasfemo. O filme não foi distribuido na Alemanha nem no restante da Europa, mas parece ter feito sucesso no Japão, onde foi localizada a única cópia existente no mundo e de onde o Museu de Cinema de Munique obteve sua cópia, restaurada pelo Centro Nacional de Cinema japonês. Apresentado originalmente com comentários de um benshi, o filme não tinha intertítulos; mas uma lista completa de intertítulos foi encontrada na censura alemã. O estilo gráfico usado na recriação dos intertítulos baseou-se nas palavras que ocasionalmente aparecem na tela.
(EP, catálogo Pordenone 2000)


Le Brasier ardent
[O Braseiro ardente]
França, 1923, 35mm, 2,152m, preto-e-branco, 105min a 18qps
companhia produtora Films Albatros; produção Alexandre Kamenka; direção Ivan Mosjoukine; roteiro Ivan Mosjoukine; direção de fotografia Joseph-Louis Mundwiller, Nicolas Toporkoff; direção de arte Alexandre Lochakoff, Edouard Gosch; elenco Ivan Mosjoukine (Zed, o detetive), Nathalie Lissenko (Ela), Nicolas Koline (o marido), Camille Bardou (presidente do clube), Huguette de la Croix
origem da cópia Cinémathèque Française

A Films Albatros foi uma das mais importantes casas produtoras de filmes na França da década de 1920. Nela foram realizados mais de quarenta filmes silenciosos, e neles, a vanguarda de cenógrafos (entre os quais, o brasileiro Alberto Cavalcanti) e diretores (Jacques Feyder e René Clair, por exemplo) estabeleceu altos padrões de qualidade para a cinematografia silenciosa francesa.
A origem da produtora deveu-se a Josef Ermoliev, um dos grandes produtores da Rússia czarista. Em 1919 transferiu para Paris a sede de sua empresa e levou consigo os atores, cenógrafos, diretores e fotógrafos que formavam o núcleo da companhia. Entre eles, os diretores Viatcheslav Tourjanski e Alexander Volkoff, e um dos maiores atores de teatro e cinema russos da época, Ivan Ilitch Mosjoukine (1889-1939).

O primeiro semestre de 1923 foi o momento de consagração de Mosjoukine em Paris. Esperado com ansiedade, o seriado La Maison du mystère, em dez episódios dirigidos por Alexander Volkoff, finalmente estreou e arrastou multidões aos cinemas. Paralelamente, ator e diretor começaram a rodar Kean. E, a 1 de junho, estreava na consagrada sala Marivaux a segunda e última aventura de Mosjoukine como diretor, Le Brasier ardent, rodado entre o verão e o outono de 1922. Por todas as manifestações, o filme surpreendeu, chocou e dividiu as audiências contemporâneas. Num artigo publicado quinze anos depois (quando Mosjoukine estava morrendo numa clínica nos arredores de Paris), Jean Renoir recordava uma projeção do filme e seu efeito sobre ele: "A audiência uivava e assobiava, chocada com um filme tão diferente do que estava acostumada a ver. Eu fiquei extasiado. Decidi abandonar meu comércio, a cerâmica, e tentar fazer filmes". (Le Point, dezembro de 1938). Os críticos, em geral, gostaram mais, ainda que tenham ficado perplexos. Ricciotto Canudo não mediu suas palavras e declarou Le Brasier ardent tão "maravilhoso quanto os primeiros balés de Diaghilev".
Visto hoje, o filme continua fascinante, espantosamente original algumas vezes, ainda que insatisfatório em seu conjunto em detrimento da soma de suas partes heterogêneas. Não foi inovador no sentido que foi La Roue, por exemplo, daquele mesmo ano. Mas, como Carl Vincent apontaria depois, ele "popularizava os surtos de inspiração e as experiências de expressão puramente cinemáticas do grupo da vanguarda francesa da época: Epstein, Dulac, e as de outros realizadores ousados, de Delluc aos expressionistas alemães". Como um portfolio pessoal de sua ampla gama de interpretação, Mosjoukine superou-se. Como escreveu Richard Abel, "o roteiro original de Mosjoukine pode parecer descuidado e extremamente inconsistente, uma mistura de ingredientes estranhamente contraditórios que não se harmonizam. Mas foi escrito, em parte, como veículo para sua vigorosa presença como ator. O pendor que tinha para a fantasia e a comédia excêntricas tornavam-no um mestre Proteu do disfarce, uma síntese de diversos tipos de personagem. No pesadelo de abertura, sozinho, ele interpreta um herético ardendo na fogueira, um cavalheiro elegante, um bispo e um mendigo. No restante do filme, assume uma série de personas contraditórias – um detetive brilhante, um bufão, um cruel mestre da dança, um amante tímido, um filhinho de mamãe".
Mais do que em outros filmes do período, Mosjoukine deveu muito a seu principais colaborados, o cenógrafo Alexandre Lochakoff e o diretor de fotografia Joseph-Louis Mundwiller. Um jornalista contemporâneo em visita ao estúdio durante a produção descreveu a imaginação vivaz e a economia de recursos com que Lochakoff concretizou, no estúdio acanhado, o cenário da rua do pesadelo de abertura. Quanto a Mundwiller, grande mestre de luz da Alsácia, começara sua carreira na filial russa da Pathé antes da I Guerra Mundial. Além de ter sido o primeiro a filmar o velho Leon Tolstói, ele foi um dos cinegrafistas pioneiros da nascente indústria cinematográfica russa. De volta à França após a guerra, e depois da Albatros, trabalhou com Abel Gance (especialmente na primeira parte de Napoléon) e Raymond Bernard (Le Joueur d'échecs/O Jogador de xadrez).
Infelizmente, a carreira de realizador de Mosjoukine acabou com Le Brasier ardent, que foi um fragoroso desastre comercial. Contudo, ao mesmo tempo, é evidente que Mosjoukine foi de fato codiretor da maior parte de seus filmes seguintes, especialmente os dirigidos por Volkoff, cuja carreira também entraria em rápido declínio uma vez separado de seu amigo e principal fonte de inspiração. (Lenny Borger, catálogo Pordenone 2003)


Gardiens de phare
[Guardas do farol]
França, 1929, 35mm, 1.689m, preto-e-branco, 62min a 24qps
companhia produtora Société des Films du Grand Guignol; direção Jean Grémillon; roteiro Jacques Feyder, baseado em peça teatral de Pierre Antier e P. Cloquemin; direção de fotografia Georges Périnal; montagem Jean Grémillon; elenco Paul Fromet, Geymond Vital (Yvon Bréhan), Genica Athanasiou (Marie), Gabrielle Fontan, Maria Fromet
origem da cópia Cinémathèque Française

Gardiens de phare, título curto e expressivo. Ao pronunciá-lo, evocamos a vida terrível desses homens sem laços com a terra, ignorantes do que se passa, e que não podem pedir ajuda. Face a face com o oceano, devem iluminar a rota dos navios, preservá-los de recifes ameaçadores.
Imaginem que um deles tenha necessidade de socorro, que sua vida esteja em perigo. Pior, ele foi mordido por um cão, lá longe, na Bretanha, antes de chegar a seu posto de trabalho. Um simples arranhão, acredita. Mas ele fica inquieto, estranho, a febre o corrói. O pai, que divide o trabalho com ele, atribui seu ar sombrio à tristeza de estar separado da noiva, com quem em breve se casará. Mas os sintomas pioram. Yvon não pode mais beber, e o pai, angustiado, fica chocado com seu olhar fixo, vazio, alucinado. Fora, a tempestade ruge e torna impossível qualquer ajuda.
Marie, a noiva, também escuta esse mar infatigável, que lança sua espuma borbulhante sobre os rochedos áridos. De repente, ela toma conhecimento que o cão que mordeu Yvon acaba de ser sacrificado: estava com raiva. Enlouquecida, ela tenta acalmar sua inquietude – talvez Yvon escape da terrível moléstia. Mas, por que o farol não acende quando a noite desce? Ela não ousa imaginar o que de assustador possa ter acontecido. Nenhuma luz varre o mar e, ao longe, escutam-se os apelos desesperados lançados por um rebocador.
Na sala de vigia do farol, pai e filho estão sentados de frente um para o outro. O filho, com respiração ofegante e olhos febris. O pai quer se aproximar das lanternas para acendê-las, mas Yvon, em plena crise, inconsciente, lança-se sobre ele: sente necessidade de morder. Uma luta terrível tem lugar enquanto o barco perdido na noite clama por socorro. O pai não pode hesitar: é preciso que sacrifique o filho e, num supremo esforço, ele o empurra através de uma porta aberta e o precipita no vazio. Depois, uma força misteriosa o arrasta a seu dever, seu dever de guarda do farol. Ele se aproxima da lanterna e a acende. [...]
Grémillon não ficará sentido se associarmos o sucesso obtido na apresentação com o autor do roteiro e da decupagem, Jacques Feyder [...], e o responsável pela fotografia, Georges Périnal. Foi a estreita colaboração desses três homens que permitiu a brilhante realização de Gardiens de phare.
Baseando-se numa peça concebida unicamente para uma situação, Feyder inventa novos desenvolvimentos e personagens secundárias ao redor das duas personagens principais; torna a ação mais viva e contribui com aquele que, aliás, ele chama de espírito do cinema. Adivinha-se que todos os seus esforços concentraram-se também na evolução da terrível moléstia, estudando os primeiros sintomas, observando-lhe as devastações antes de chegar à crise final.
Grémillon é um verdadeiro amante do mar. Ninguém o compreende melhor em seus múltiplos aspectos, quer ele siga amorosamente com o olhar uma vaga que morre na praia ou admire as ondas raivosas que se quebram contra os rochedos. Um roteiro como o de Gardiens de phare não poderia encontrar um realizador mais sensível. Ele não se contenta em conduzir uma ação violenta, rápida, incansável. Grémillon ainda a admira mais porque ela se passa num farol. Ele examina todos os mecanismos dessa maravilha sob o aspecto mais imprevisto, interessa-se prodigiosamente pelos efeitos que as sombras e as luzes da lanterna jogam sobre os rostos das personagens. Isso o recorda do que ele deve exprimir, e o faz lembrar de seu grande amigo: o mar próximo que, infatigável, lança-se ao assalto do farol. É com um entusiasmo desses que se fazem as grandes obras.
Quanto a Périnal, ele dotou o filme de uma fotografia magnífica que, para muitos, foi uma revelação. Não se trata aqui de uma fotografia luminosa. Melhor do que isso, é uma fotografia de atmosfera, cinza sem ser chapada, voluntariamente imprecisa sem ser obscura. Ela aumenta mais a angústia, a opressão. Périnal é um mágico inconsciente. Com a ajuda de telas vermelhas, ele transforma uma marinha ensolarada numa estranha paisagem lunar, e seus jogos de sombras e luzes têm a suavidade de uma imagem de Man Ray.
Três artistas carregam todo o peso da interpretação: Genica Athanasiou consegue ser uma jovem bretã emocionante, embora seu rosto não se preste a isso. Fromet, o pai, tem alguns momentos de inesquecível emoção. E Vital Geymond interpreta sobriamente, mas com uma rara força, o papel terrível do filho em que muitos, e não os menores, teriam sucumbido. (Marcel Carné, Cinémagazine, 4/10/1929)


Mutter Krausens Fahrt Ins Glück
[A Viagem da mãe Krause até a felicidade]
Alemanha, 1929, 35mm, 2.858m, preto-e-branco, 118min a 21qps
companhia produtora Prometheus Film-Verleih und Vertrieb-GmbH; produção Willi Münzenberg; direção Piel Jutzi; roteiro Willy Döll, Jan Fethke, baseado nas histórias e desenhos de Heinrich Zille; direção de fotografia Piel Jutzi; direção de arte Karl Haacker, Robert Scharfenberg; elenco Alexandra Schmidt (mãe Krause), Holmes Zimmermann (Paul Krause), Ilse Trautschold (Erna Krause), Gerhard Bienert (inquilino), Vera Sacharowa (Friede), Fee Wachsmuth (menina), Friedrich Gnaß (Max)
origem da cópia Deutsche Kinemathek Museum Für Film Und Fernsehen

Um clássico da cinematografia proletária revolucionária e um dos últimos filmes silenciosos da era Weimar, o filme foi lançado no bairro de Wedding, Berlim, em 30 de dezembro de 1929. Foi anunciado como um "filme Zille", em homenagem a Heinrich Zille, o popular ilustrador e cronista da vida da classe trabalhadora que morrera cinco meses antes. Baseado em motivos de histórias e desenhos de Zille, Mutter Krausens Fahrt ins Glück é um melodrama social entremeado de imagens documentais sobre o proletariado de Berlim. Jutzi, diretor alemão que em meados da década de 1920 abandonou os filmes comerciais para se dedicar a documentários sociais, dirigiu o filme em colaboração com os conhecidos pintores ativistas Kathe Kollwitz e Otto Nagel, e com o compositor Paul Dessau. O orçamento reduzido foi propiciado pela Prometheus Films, companhia dedicada à promoção de filmes soviéticos na Alemanha.
À semelhança de Berlim, a sinfonia da metrópole / Berlin, die Sinphonie der Großtadt (Walter Ruttmann, 1927), Jutzi usa a câmara e a montagem para capturar a vida real, mas, em contraste com o corte transversal que Ruttmann faz dos vários ambientes urbanos, ele se concentra nos bairros proletários berlinenses. A panorama rápida e os planos em chicote das cenas introdutórias buscam mostrar as condições de vida que determinam as ações individuais das personagens. Frequentemente, a câmara se move dos atores para seu ambiente miserável, como para dar lugar à declaração de Zille que "pode-se matar um homem com um apartamento tão facilmente quanto com um machado". Muitos membros do elenco nunca haviam sido atores; seus rostos rudes, filmados em primeiros planos com a câmara baixa (de acordo com o "estilo russo" de Pudovkin e Eisenstein), sugerem um interesse documental realista e autêntico. A descrição da vida de uma família da classe trabalhadora é feita paralelamente à organização proletária de jovens operários. Numa cena famosa, a moça encontra seu namorado politizado numa manifestação de protesto, a princípio vacilante, mas segue a marcha com os outros ao som da Internacional. [...]. O filme repete esta cena no final, construindo, assim, uma alternativa de propaganda política para a conclusão melodramática da história. A ação coletiva e solidária da jovem classe trabalhadora é proposta como solução para o fatalismo do sofrimento individual. A velha mãe Krause não tem a consciência de classe da protagonista da Mãe / Mat (1926) de Pudovkin. A curta (por causa da censura) cena final sugere um anseio utópico. A adaptação feita, em 1975, por Rainer Werner Fassbinder – Mutter Küsters Farht zum Himmel – é uma refutação cáustica desse tipo de solução abertamente otimista da perspectiva de uma desiludida Nova Esquerda alemã. O filme de Jutzi foi rodado entre setembro e novembro de 1929, em locações no bairro berlinense conhecido como "Wedding vermelho" devido à grande quantidade de moradores proletários comunistas. Mutter Krausens Fahrt ins Glück responde ao turbilhão social daquele ano: o crescimento do desemprego depois da crise do mercado de ações e a mortal cisão da classe proletária entre o lumpenproletariat (que o filme caricaturiza e difama com imagens de bêbados e jogadores inconscientes) e os membros mais organizados e conscientes do Partido Comunista. Kuhle Wampe (1932), o filme de Bertold Brecht dirigido por Slatan Dudow, tem a mesma polarização. Alguns anos depois, o apelo implícito dos dois filmes por uma ação coletiva encontraria um eco distorcido na mobilização das massas por Hitler. (Anton Kaes, catálogo Pordenone 2010)
assessoria de Imprensa